Chega ao fim mais uma edição de uma das mais importantes feiras internacionais de calçado de moda. A 100.ª MICAM, que decorreu de 7 a 9 de setembro, na cidade italiana de Milão, foi palco para as empresas apresentarem as tendências atuais e tudo o que há de novo no setor, mas não só.
Com um espaço próprio, o BioShoes4All, coordenado pelo CTCP – Centro Tecnológico do Calçado de Portugal, apresentou os resultados de um projeto que visa o desenvolvimento de calçado sustentável.
Uma agenda que reúne cerca de 70 parceiros, entre empresas e entidades científicas e tecnológicas, associações e universidades, que almeja acelerar a transição do cluster do calçado para uma economia circular e bioeconomia.
Foi uma das novidades da MICAM e roubou o protagonismo. Caroços de azeitona, cascas de laranja, podas de videira, borra de café, casca de arroz, extratos de oliveira ou mexilhões são alguns exemplos de resíduos, neste caso alimentares, que estão a ganhar uma nova vida, com um projeto cujo investimento fixa-se nos 62 milhões de euros, 40 dos quais provenientes do PRR.
Resíduos que até então não apresentavam valor, mas cujos compostos são agora extraídos e aplicados no tratamento de peles ou em componentes, como palmilhas ou solas, garantindo um calçado sustentável e igualmente resistente, sendo reintroduzidos na cadeia de valor, promovendo a economia circular.
Coordenado pelo CTCP, o projeto despertou o interesse e a curiosidade dos visitantes, entre fabricantes e clientes, europeus e não só, e prepara-se para novas investigações que poderão levar a avanços, entre os quais a inclusão de subprodutos marinhos.
Assente em cinco pilares – biomateriais, calçado ecológico, economia circular, tecnologias avançadas de produção, e formação e promoção –, o BioShoes4All prevê ainda a incorporação de linhas-piloto industriais em unidades fabris de empresas que integram o consórcio e a criação de meia centena de produtos.
Aporta um enorme foco na sustentabilidade, que deixou de ser somente uma tendência, tornando-se numa urgência para a indústria portuguesa do calçado, que procura dar resposta à procura dos consumidores por soluções mais amigas do ambiente no momento de comprarem um novo par de sapatos. Algo que o BioShoes4All investiga, criando e melhorando técnicas que procuram aprimorar o processo de curtimento do couro, reduzindo o impacto ambiental, assim como encontrar novas potencialidades para derivados da indústria alimentar.
No último dia de MICAM, realizou-se a conferência ‘BioShoes4All: Paving the Way to a Sustainable Footwear Industry’, que contou com a moderação de João Maia, diretor-geral da APICCAPS, e com as apresentações ‘The Footwear Industry in the World’, de Joana Vaz Teixeira (World Footwear); ‘A New Generation of Products’, de Maria José Ferreira (BioShoes4All, CTCP); e ‘The Importance of Ecodesign’, de Matteo Pasca (Arsutoria School).
“Produtos com soluções que não existiam”
Em declarações aos órgãos de comunicação social presentes em Milão, a diretora de investigação do CTCP e coordenadora do BioShoes4All, Maria José Ferreira, enalteceu o envolvimento e o trabalho colaborativo e profícuo entre as dezenas de empresas que integram o consórcio do projeto.
“Os 50 fabricantes de calçado, materiais e componentes – couros, palmilhas, têxteis revestidos ou solas –, as desenvolvedoras de tecnologias de produção e software, em conjunto com mais 20 entidades do sistema científico-tecnológico, estão a investigar e desenvolver produtos, com soluções que não existiam”, diz.
A elevada componente de investigação associada ao BioShoes4All já produz frutos – neste caso sapatos – e foca o tratamento de materiais como as peles e os couros. “Há um conjunto de matérias-primas, como a casca de pinheiro, a borra de café ou a folha de oliveira, que podemos transformar, fazendo produtos químicos de origem biológica e adicioná-los às peles, que ficam estabilizadas quimicamente, tornando-se couros funcionais”, pormenoriza.
“Os materiais e produtos integram subprodutos de alimentação humana ou animal, incluindo casca de arroz, cereais, caroço de azeitona, castanha, casca de mexilhão, podas de videira ou algas, entre outros, que reforçam ou materializam novos materiais, palmilhas, reforços ou solas. Valorizam resíduos das indústrias agroflorestais nacionais, como extratos de casca de pinheiro, café ou oliveira para curtir peles. São reciclados resíduos de produção de couro, componentes e calçado para fazer novos couros e componentes, incluindo testeiras, contrafortes, solas e calçado”, descreve.
Originarão produtos mais sustentáveis e amigos do ambiente, que começam a estar cada vez mais presentes no mercado, indo ao encontro das exigências dos consumidores. Um estudo recentemente desenvolvido pela APICCAPS em conjunto com a Universidade Católica Portuguesa apresenta resultados que apontam a uma mudança profunda nos padrões de consumo: entre os inquiridos, 9 em cada 10 afirmam ter adotado hábitos de compra mais sustentáveis.
Dezenas de empresas portuguesas presentes
A 100.ª MICAM acolheu cerca de 870 marcas, entre as quais 401 italianas e 469 internacionais, que expuseram os seus modelos de calçado a mais de 30 mil visitantes e compradores de 150 países. Uma edição comemorativa que contou com desfiles de moda, conferências dedicadas à inovação, uma exposição histórica sobre o setor do calçado e a emissão de um selo comemorativo.
Entre as cerca de quatro dezenas de empresas portuguesas que marcaram presença, estiveram a Bianco, Last Studio, Creation of Minds, Tentoes Trekking, Dark Collection, Felmini, SMR23, Jefar/Pratik, Joia, Pretty Love, Walkys, Aerobics, Ambitious, Overstate, AsPortuguesas, Beppi, Cort-Gin, Creator, Cruz de Pedra, Flex & Go, Fly London, Helena Mar, PC Footwear, Hickersberger, Lemon Jelly, Mata, MLV Portuguese Shoes, Nano, Penha, Portania, Profession: Bottier, Softinos, Storm, Suave, Take a Walk, UAUH!, Valuni e Wedo.
Tarifas EUA-EU “podem trazer vantagem competitiva”
Em visita à MICAM, o secretário de Estado da Economia, João Rui Ferreira, mostrou-se otimista face ao acordo celebrado entre Estados Unidos da América e União Europeia relativamente às tarifas aduaneiras. “Os momentos de dificuldade, do ponto de vista económico, da incerteza geopolítica e até da própria alteração de consumo podem trazer uma vantagem competitiva para Portugal”, considera.
Um acordo aduaneiro que pode “abrir um cenário de aumento de competitividade” para as empresas da indústria do calçado. Assim, o Governo português reforça não ser a altura para desinvestir no mercado norte-americano; pelo contrário, tendo em consideração que Portugal terá uma tarifa inferior à de outros mercados e setores.
Em Milão, João Rui Ferreira defendeu que “Portugal tem de ser um país de valor, jamais pode ser um país de volume”, sublinhando que “a inovação é um pilar fundamental” para poder “destacar-se ao nível competitivo”.
BioShoes4All em destaque na imprensa
“Resíduos transformam-se em calçado sustentável com o apoio do PRR no projeto BioShoes4All” – Recuperar Portugal
“Caroço de azeitona ou casca de pinheiro: calçado português aposta em novos materiais biológicos” – Público
“Caroços de azeitona e podes de videira ganham nova vida em sapatos com investimento de 60 milhões” – Jornal Económico
“Mais de 40 empresas de calçado portuguesas em Milão. Governo otimista mas reconhece momento de incerteza” – Observador
“Portugal apresenta novidades sustentáveis para o calçado em Milão” – RTP
“Portugal em força na MICAM: conheça as empresas de calçado que vão surpreender em Milão” – Felgueiras Magazine
“Governo diz estar otimista quanto a tarifas dos EUA e fala em vantagem para Portugal” – Dinheiro Vivo
“Portugal afirma protagonismo internacional na MICAM com aposta na inovação e sustentabilidade” – Jornal de Notícias
“MICAM: inovação e qualidade no centro da estratégia do calçado português” – FashionNetwork
