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Portugal afirma-se como alternativa sustentável à produção massificada da Ásia

Inteligência artificial, automação ou robótica – e até sustentabilidade – são termos que há umas décadas praticamente não figuravam no léxico da maioria dos empresários portugueses afetos à indústria do calçado, mas tornaram-se indissociáveis do presente e do futuro da mesma.

A forma de produzir sapatos está a mudar a uma velocidade estonteante e as empresas devem-se preparar e apetrechar para enfrentar e suplantar os desafios que o mercado e as diretrizes regulatórias impõem.

Nesse sentido, CTCP – Centro Tecnológico do Calçado de Portugal e APICCAPS apresentam-se enquanto organismos orientadores, ajudando as empresas a prepararem-se para as adversidades cada vez mais acentuadas pela entrada na Europa de artigos confecionados provenientes do continente asiático – assegura quase 95% da produção mundial de calçado – e que não estão sujeitos a restrições, de ordem legislativa, ambiental ou produtiva, no processo de fabrico.

Nesse sentido, e a pouco mais de seis meses do término de um dos projetos que representa o maior investimento na indústria de calçado nacional, as duas entidades organizaram uma conferência de dois dias, 18 e 19 de novembro, que atraiu atenções um pouco por todo o globo.

Foi com uma “enorme satisfação” que Luís Onofre, presidente da APICCAPS, deu início a um dos mais marcantes eventos do cluster do calçado e moda de 2025.

Centenas de quilómetros percorridos para visitar empresas, marcantes e estruturais apresentações e intervenções de oradores e especialistas de renome, debates e mesas-redondas, e dezenas de convidados de várias latitudes e continentes. A conferência Welcome to the Industy of the Future realizou-se no âmbito da agenda mobilizadora FAIST – Fábrica Ágil, Inteligente, Sustentável e Tecnológica e teve como palco o icónico Palácio da Bolsa, na cidade do Porto.

Um evento que colocou Portugal no centro das atenções no que ao calçado, moda, marroquinaria e artigos de pele diz respeito, pautado pelo conhecimento sobre o passado e com a mira apontada a soluções que ajudem a enfrentar o presente e a preparar o futuro, sempre com a tecnologia e a sustentabilidade – ambiental e económico-financeira – no pensamento dos especialistas e decisores.

Apesar de o foco estar na partilha de know-how industrial, académico, tecnológico e produtivo sobre o cluster, não faltou o glamour que também caracteriza ao cluster, acentuado no jantar comemorativo do 50.º aniversário da APICCAPS, que contou com vários ilustres da indústria, política e sociedade portuguesas.

Liderar a Europa em prol da sustentabilidade mundial

O conhecimento, o saber-fazer, a tradição, a qualidade, a localização estratégica e a incisiva aposta em digitalização, robótica e automação colocam Portugal na pole position enquanto alternativa sustentável à produção em massa oriunda da Ásia.

Luís Onofre, presidente da APICCAPS, considera que Portugal “tem dado provas” da ambição em assumir-se “uma alternativa credível e competitiva ao modelo de produção massificado asiático”, recordando que a Ásia é responsável por cerca de 94% dos 24 mil milhões de pares de sapatos produzidos em todo o mundo anualmente.

“A Europa não pode resignar-se a um papel secundário. São mais de 100 milhões de euros investidos nos últimos anos em Portugal, um passo decisivo para tornar a indústria portuguesa do calçado a mais moderna do mundo, acelerando a transformação digital e tecnológica das empresas”, sustentou.

Na sua intervenção, Vasco Rodrigues, da Universidade Católica, abordou o passado, o presente e o futuro do cluster, lembrando que há três décadas, cerca de um terço do calçado produzido no mundo tinha proveniência da Europa. Porém, atualmente a produção europeia corresponde a somente 2,3% da quota mundial.

Sofia Moreira de Sousa, da Comissão Europeia, considerou a indústria portuguesa do calçado um exemplo, ao transformar os desafios em oportunidades, lembrando o “compromisso político e económico” de Bruxelas “para reforçar a competitividade industrial europeia, acelerar a transição verde e digital e garantir que a Europa seja um espaço de inovação, produção e tecnologia”.

Portugal, “um parceiro fiável conhecido pela elevada qualidade e flexibilidade”, é um dos 20 países mais seguros para fazer negócios. Em 2024, exportou 68 milhões de pares de calçado para cerca de 170 países.

Números que suportam a intervenção de Florbela Silva, coordenadora do FAIST, que apontou várias razões para escolherem Portugal, como a exclusividade, segurança, qualidade, flexibilidade, sustentabilidade e lealdade. A também diretora de Inovação do CTCP considera que “o setor está a entrar numa nova era” e que “a inovação made in Portugal está a redefinir como o mundo funciona”.

Automação, robótica e novos modelos de negócio

Vários painéis reuniram especialistas de múltiplas áreas da indústria do calçado português. O primeiro debruçou-se sobre a automação e a robótica e contou com os contributos de Albano Fernandes (AMF), Ricardo Costa (Rodiro), Ventura Correia (Carité) e Vítor Almeida (Tropimática).

E o segundo sobre novos modelos de negócio, com a participação de Fernando Ferro (DCSI Pro), Flávio Ferreira (Bolflex/Rubberlink), João Esteves (Diverge) e Rui Moreira (CTCP).

Com a manhã terminada, o primeiro dia de conferência prosseguiu com visitas a duas empresas do cluster: Carité e Bolflex. Para terminar, realizou-se o jantar de gala que assinalou, também, os 50 anos da APICCAPS, não sem antes os convidados visitarem a exposição com os resultados do FAIST patente no Palácio da Bolsa.

Simplificar e acelerar os processos de legislação

Baterias recarregadas e novo dia de conferência a iniciar-se em Felgueiras, com a visita às duas unidades industriais da Vapesol. Pela tarde, regresso ao Palácio da Bolsa para dar seguimento aos últimos painéis do programa.

O primeiro juntou Cristiano Figueiredo (CTCP), Carrie Howe (What the Future) e Sergio Dulio (UITIC), que abordaram a indústria do futuro, o atual momento de polarização do setor, as dificuldades sentidas e as respetivas soluções encontradas, nomeadamente a introdução de novas tecnologias no processo produtivo e formas de atrair o interesse das gerações mais jovens para o cluster.

Posteriormente, Beatriz Faria, especialista em Inteligência Artificial, explicou de que forma esta ferramenta está a transformar e a mudar a indústria do calçado, seguindo-se um painel que se debruçou sobre a reindustrialização da Europa, composto por João Maia, diretor-geral da APICCAPS, e César Araújo, presidente da ANIVEC – Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e de Confeção.

Ambos concordaram que a concorrência asiática não é saudável, que a Europa necessita de adaptar-se para voltar a ser competitiva, alertando para a urgência em simplificar e acelerar os processos de legislação europeia para o setor, e de concentrar-se em produzir e exportar produtos de valor acrescentado.

Para encerrar a conferência, tomou da palavra Rosana Perán, presidente da CEC – Confederação Europeia da Indústria do Calçado, que classificou o atual momento como “crucial” para a indústria. “Com o FAIST, foi dado um passo em frente extraordinário e o progresso não implica esquecer a tradição”, referiu, apontando para a importância de a tecnologia ser uma ferramenta ao serviço dos colaboradores e para a capacidade de utilizar a Inteligência Artificial, mantendo o talento humano. “A Europa não pode ser só um mercado de consumo”, finalizou.


Data Publicação: sexta-feira, 21 de novembro de 2025
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