Num local que projeta – literalmente – Portugal para o mundo, decorreu a conferência BioShoes4All: The Final Step, sendo apresentados os resultados e números mais recentes de um projeto cuja execução atingiu os 85%, fazendo desta uma das agendas portuguesas do PRR – Plano de Recuperação e Resiliência com uma das taxas de concretização mais elevadas à data.
A conferência que ditou ‘o início do fim’ do projeto BioShoes4All, que representa o maior investimento da história na indústria portuguesa do calçado, realizou-se no Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões, em Matosinhos, no dia 16 de outubro, e foi promovida pelo CTCP – Centro Tecnológico do Calçado de Portugal e pela APICCAPS.
Com cerca de duas centenas de especialistas e agentes do setor, e representantes institucionais e governamentais presentes, o dia iniciou-se com a intervenção de Luís Onofre, presidente da APICCAPS, que reforçou a “aposta no futuro do setor” que o BioShoes4All representa. “É uma resposta concreta aos desafios do presente e do futuro e promove os produtos portugueses nos maiores eventos internacionais. O setor está mais preparado, mais resiliente e mais competitivo. Temos transformado o legado em inovação”, enalteceu.
No entanto, para o dirigente e designer, “o caminho não terminou”. “O BioShoes4All é o ponto de partida. O futuro do calçado português constrói-se todos os dias e é o que temos feito, mesmo em tempos de muita incerteza”.
Na abertura da sessão, Annika Breidthardt, da Comissão Europeia, mostrou-se agradavelmente surpreendida com os resultados. “Perguntava-me o que seria o BioShoes4All na prática. Agora, os resultados são impressionantes e foram alcançados num contexto muito difícil. Combinam a tradição com a modernidade e honram o passado, preparando o presente e o futuro. Parabéns a todos”, reconheceu.
Já João Rui Ferreira, secretário de Estado da Economia, enalteceu a possibilidade que o PRR deu ao cluster para “Portugal se diferenciar num setor muito competitivo, que de crise em crise vai saindo abalado”. “Encontraram-se materiais que podem ser reutilizados e a gestão de recursos é essencial”, disse, lembrando que “os mercados irão impôr condições: produtos com materiais naturais e sustentáveis; vai ser a realidade e quem estiver melhor preparado vai posicionar-se melhor”.
Para apresentar os mais recentes resultados do BioShoes4All, assumiu da palavra a coordenadora do projeto, Maria José Ferreira, diretora de Investigação do CTCP. São mais de 150, entre 25 linhas-piloto industriais e 50 produtos com menor pegada ambiental, num investimento de 60 milhões de euros (41 de incentivo).
“Estamos a atingir os resultados que propusemos, que são pioneiros e que vão ajudar a transformar a indústria, com metodologias que podem ser adotadas por todas as empresas de setor”, refere, destacando os cinco pilares nos quais assenta o projeto: biomateriais, calçado ecológico, economia circular, tecnologias avançadas de produção, e capacitação e promoção.
‘No reciclar é que está o ganho’
No primeiro painel do dia, foram dados os testemunhos de José Pinto, da Procalçado, tendo referido que “os desafios encontrados vão permitir melhorar no futuro” e que “quem não participou no projeto perdeu uma soberana oportunidade de melhorar”.
Já Cristina Carrola, da APA – Agência Portuguesa do Ambiente, acredita que o BioShoes4All permite “acelerar o futuro”. “Temos tentado simplificar algumas questões, sem ultrapassar as normas comunitárias. Os mecanismos de avaliação são válidos e as metodologias estão estabilizadas”, garantiu.
Por sua vez, Filipe Carneiro, da LIPOR, alertou para a importância de ser possível dar circularidade aos sapatos descartados pela população, evitando a sua incineração ou deposição em aterro, algo para o qual o contributo do BioShoes4All é “importantíssimo”.
‘Nova geração de produtos’
Para encerrar a manhã, Joaquim Gaião, do CTIC – Centro Tecnológico das Indústrias do Couro, recordou que “a indústria dos curtumes foi a primeira na Europa a sofrer a medida do poluidor-pagador” e que o BioShoes4All permitiu introduzir mudanças – promovendo a bioeconomia – no processo produtivo do setor.
Pedro Castro, da Aloft, opinou que este consórcio “foi o momento de maior crescimento e transformação”, permitindo às empresas darem “um salto considerável”. “Queríamos fazer produtos recicláveis e com o BioShoes4All foi possível, alcançando resultados muito interessantes”, reforçou.
Também Patrícia Caetano, da Monteiro Ribas, regozijou o projeto. “Queríamos produtos com menor impacto ambiental, os resultados foram alcançados e permitiu-nos lançar sementes para o futuro”.
Após este painel, os convidados visitaram a exposição com produtos resultantes do BioShoes4All patente no Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões. Com o almoço terminado, reinício da conferência.
‘Rastreabilidade dos produtos’
Terceiro painel do dia, com intervenção de Carmen Arias, da Confederação Europeia do Calçado, que engrandeceu o objetivo de “reduzir o impacto ambiental da produção”, nomeadamente o desperdício, “a reestruturação no uso de químicos e a aplicação do ecodesign”.
Já Vera Pinto, do CTCP, abordou o Passaporte Digital do Produto, que irá “conter informações sobre toda a cadeia de valor do produto, desde as matérias-primas”, enquanto Rui Rebelo, do INESC, classificou-o como uma “oportunidade para as empresas apresentarem os seus produtos e características”.
‘O mar: um horizonte de possibilidades’
Antepenúltimo painel, com Manuela Pintado, da Universidade Católica, que partilhou a experiência de “transformar as cascas de bivalves em pó para poliuretanos como alternativa a combustíveis fósseis”, alertando para a importância do financiamento para projetos de investigação desta índole.
Enquanto Filomena Barreiro, do Instituto Politécnico de Bragança, engrandeceu a partilha de informação intersetorial de várias indústrias e referiu ser “extremamente importante aproveitar recursos marítimos e resíduos da indústria pesqueira”, Maria Coelho, do B2E CoLAB, deu como exemplo “a concha de ostra ser transformada em argamassa” para reivindicar a “valorização de produtos de origem marítima, galvanizando novas cadeias de valor”.
‘Uma visão de futuro’
No último painel da conferência, André Ribeiro, da Ambitious, referiu ser essencial “trabalhar em conjunto para obter vantagens como o conforto”, partilhando que a empresa “reduziu em 15% o desperdício de couro no processo produtivo”; Sérgio Oliveira, da Simaca, apontou à “durabilidade do couro enquanto matéria-prima de excelência”; Joana Campos e Silva, da Moda Portugal/CENIT, mencionou “nada ser possível sem apostar na formação dos quadros das empresas, como o CTCP faz”; Nuno Aguiar, da APIP – Associação Portuguesa da Indústria de Plásticos, afirmou que “o plástico não é inimigo, será sempre um aliado da sustentabilidade, com características e propriedades únicas”; e Sara Nunes, da 3DCork, classificou a cortiça como um “super-material capaz de estar em qualquer sapato, aliando o tradicional à inovação”.
Antes do encerramento, Paulo Gonçalves, porta-voz da APICCAPS, abordou a… nova abordagem de comunicação para um setor que mundialmente produz 24 mil milhões de pares de sapatos: 88% na Ásia, dos quais 56% na China. “A via alternativa é o calçado de excelência”, considerou.
Posteriormente, subiu ao palanque Fernando Alfaiate, presidente da Estrutura de Missão Recuperar Portugal, mostrando-se orgulhoso com o BioShoes4All. “Muitas ideias, fruto de uma vontade colativa, traduzem-se em resultados concretos. Estamos a construir um caminho de transição para um país mais sustentável, digital e resiliente. Projeto é uma prova de que o PRR tem um carácter transformador, capaz de unir ciência, indústria e sustentabilidade em torno de um objetivo comum: criar valor”, disse, saudando a “capacidade inovadora de Portugal através dos recursos à sua disposição”.
Para terminar a conferência, houve uma ‘montra-viva’ com modelos calçados com sapatos de vários produtores que integram o consórcio – e não só – BioShoes4All.

Fotos: APICCAPS