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A Inteligência Artificial entra na fábrica

A Inteligência Artificial (IA) está a afirmar-se como um dos principais motores de transformação da indústria do calçado, com impacto crescente em áreas críticas como planeamento, produção, logística e relação com o cliente. Ainda assim, a adoção da tecnologia permanece desigual, marcada por constrangimentos ao nível de investimento, competências e integração tecnológica.

Esta é uma das principais conclusões do mais recente estudo da APICCAPS, no âmbito do projeto World Footwear, que analisa de que forma as empresas do setor estão a implementar soluções de IA e quais os ganhos efetivos já observados em contexto industrial.

O documento traça um retrato realista: longe de uma revolução imediata, a IA está a ser introduzida de forma incremental, com projetos-piloto focados em casos de uso concretos e com retorno mensurável. Ainda assim, os primeiros resultados apontam para melhorias significativas em indicadores-chave como tempos de planeamento, eficiência produtiva, qualidade e consumo energético.

Pressão competitiva acelera mudança

O contexto global ajuda a explicar esta tendência. A indústria do calçado, avaliada em mais de 400 mil milhões de dólares e com perspetivas de crescimento robusto na próxima década, enfrenta uma combinação exigente de fatores: concorrência internacional intensa, pressão sobre custos, exigências crescentes de sustentabilidade e uma procura cada vez mais personalizada.

Neste cenário, segundo o estudo ‘Artificial Intelligence in the Footwear Sector’, a digitalização deixou de ser opcional. Em traços gerais, “a IA surge como uma ferramenta crítica para responder a esta complexidade, permitindo às empresas automatizarem processos, anteciparem procura, otimizarem recursos e melhorarem a tomada de decisão”.

O estudo sublinha igualmente que “a IA não substitui o know-how industrial, mas potencia-o”. Ao transformar dados operacionais em informação acionável, a tecnologia permite às empresas reagirem mais rapidamente às dinâmicas do mercado e reduzirem ineficiências históricas.

Do design à produção: onde a IA já cria valor

A aplicação da IA ao longo da cadeia de valor do calçado é já visível em várias frentes.

No design, ferramentas de IA generativa permitem explorar múltiplas soluções criativas em poucos segundos, acelerando o desenvolvimento de novos produtos e reduzindo o tempo de colocação no mercado. Em paralelo, soluções de personalização baseadas em dados, como o scanning 3D do pé, estão a transformar a relação com o consumidor, aumentando a probabilidade de compra e reduzindo devoluções.

Na produção, os impactos são ainda mais evidentes. Sistemas baseados em visão computacional conseguem detetar defeitos em tempo real, enquanto algoritmos de otimização ajustam parâmetros produtivos de forma dinâmica. O resultado traduz-se em menos desperdício, maior consistência e ganhos de produtividade.

Já na cadeia de abastecimento, a IA permite previsões de procura com níveis de precisão elevados, melhorando a gestão de stocks e reduzindo ruturas ou excesso de inventário. Em simultâneo, algoritmos de otimização logística contribuem para cadeias mais ágeis e eficientes.

Laboratório real da indústria portuguesa

Um dos pilares do estudo é a análise de casos concretos desenvolvidos no âmbito do projeto FAIST – Fábrica Ágil, Inteligente, Sustentável e Tecnológica, um consórcio nacional que reúne mais de 40 entidades e representa um investimento de cerca de 50 milhões de euros, no âmbito do PRR.

O FAIST funciona como um ‘laboratório vivo’ para testar soluções de IA em ambiente industrial, com foco na sua aplicabilidade prática e escalabilidade, sobretudo para pequenas e médias empresas (PME).

Entre os exemplos analisados, destaca-se a atuação da Olifel, que “desenvolveu um sistema de planeamento assistido por IA capaz de reduzir o tempo de planeamento de oito horas para apenas uma”. Ao mesmo tempo, a taxa de cumprimento dos planos de produção poderá atingir níveis próximos de 98,5%, face a cerca de 50% anteriormente.

Já a ISI “aposta na integração entre planeamento inteligente e sustentabilidade, com monitorização em tempo real das emissões de CO2 por par produzido e otimização do consumo energético”. A empresa estima reduções de até 90% no tempo de planeamento, além de ganhos ao nível da qualidade e eficiência.

Por sua vez, a MIND “tem aplicado IA em processos de engenharia e corte, com destaque para a otimização do aproveitamento de materiais e redução do tempo de desenvolvimento de amostras – que pode cair de oito semanas para cerca de duas”.

Ganhos claros, mas obstáculos persistem

Apesar dos resultados promissores, o estudo identifica um conjunto de barreiras estruturais que continuam a limitar a adoção da IA no setor.

Entre os principais desafios destacam-se “a qualidade e fragmentação dos dados, muitas vezes dispersos por sistemas antigos, o elevado investimento inicial, particularmente relevante para PME, a falta de competências especializadas em IA e análise de dados, as dificuldades de integração com sistemas industriais existentes e a ausência de métricas claras de retorno, que dificulta a passagem de projetos-piloto para escala industrial”.

A estes fatores soma-se uma dimensão cultural: “a resistência à mudança e a desconfiança em sistemas ‘opacos’ continuam a travar a adoção em algumas organizações”.

Novos caminhos

Perante este cenário, o estudo defende uma abordagem pragmática. “Em vez de grandes transformações disruptivas, as empresas devem apostar em projetos específicos, com objetivos bem definidos e indicadores de desempenho claros”.

A lógica passa por identificar um problema concreto, como reduzir tempos de planeamento ou melhorar a qualidade, e desenvolver soluções baseadas em dados já disponíveis, garantindo uma integração progressiva nos processos operacionais.

Os resultados do FAIST demonstram que “esta abordagem pode gerar ganhos significativos mesmo em contextos industriais tradicionais, reforçando a competitividade e resiliência das empresas”.

Uma transformação inevitável

A conclusão do estudo ‘Artificial Intelligence in the Footwear Sector’, da APICCAPS, no âmbito do World Footwear, é inequívoca. “A IA está a passar da fase experimental para uma aplicação prática no setor do calçado”.

Com efeito, embora o ritmo de adoção varie entre empresas, a direção é clara. “Num mercado global cada vez mais exigente, a capacidade de integrar tecnologia nos processos produtivos e de decisão será determinante para o posicionamento competitivo”.

Para a indústria portuguesa, que se tem afirmado os segmentos de maior valor acrescentado, “a IA representa não apenas uma oportunidade, mas uma necessidade estratégica”. A questão já não é se a IA será adotada, mas quão rapidamente cada empresa conseguirá integrá-la no seu modelo de negócio.

Fonte: APICCAPS
Foto: DR

Data Publicação: terça-feira, 24 de março de 2026
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