Há uma nova geração de produtos, ainda mais inovadora, a chegar ao mercado de calçado. Sapatos feitos com casca de maçã ou ananás deixam de ser uma novidade, com a introdução de produtos provenientes de azeitonas, borra de café, casca de arroz ou de ovos, passando por extratos de oliveira, pinheiro, mexilhões ou repiso de tomate.
Uma nova linha de produtos ultimada no âmbito do projeto BioShoes4All, que está a ser apresentada ao mercado internacional na edição número 100 da feira de calçado MICAM, em Milão, Itália, de 7 a 9 de setembro.
Envolvendo 70 parceiros, entre os quais 20 entidades de investigação e desenvolvimento e 50 empresas, o BioShoes4All pressupõe um investimento de 62 milhões de euros, no âmbito do PRR – Plano de Recuperação e Resiliência, e encontra-se numa fase decisiva para a sua conclusão.
“Envolvemos empresas representativas de toda a cadeia, todas orientadas para concretizar uma mudança radical ao nível da sustentabilidade dos materiais, produtos químicos, processos de fabrico, modelos de negócio e produtos de calçado e marroquinaria”, enaltece a coordenadora do projeto.
Maria José Ferreira afirma que o BioShoes4All “é o maior projeto de sempre da indústria portuguesa de calçado e o maior investimento em investigação, desenvolvimento, inovação e capacitação realizado num curto espaço de tempo”.
Considera que “o projeto apresenta um potencial relevante de transformação do cluster do calçado português, com impacto internacional”.
Até ao momento, são várias as novas soluções desenvolvidas e que devem chegar ao mercado ainda em 2025, apresentadas a potenciais clientes na MICAM, a maior e mais relevante feira internacional de calçado.
“Os novos produtos são criados e refinados com base em estudos para medir e reduzir a sua pegada ambiental e de carbono, e atuar ao nível do desenvolvimento e seleção dos materiais e processos”, prossegue Maria José Ferreira, apontando tratarem-se, no essencial, de “produtos leves, apelativos, mas com poucos materiais diferentes, para potenciar a sua produção ágil e reciclagem”.
“Os materiais e produtos integram subprodutos de alimentação humana ou animal, incluindo casca de arroz, cereais, caroço de azeitona, castanha, casca de mexilhão, podas de videira ou algas, entre outros, que reforçam ou materializam novos materiais, palmilhas, reforços ou solas. Valorizam resíduos das indústrias agroflorestais nacionais, como extratos de casca de pinheiro, café ou oliveira para curtir peles. Reciclam resíduos de produção de couro, componentes e calçado para fazer novos couros e componentes, incluindo testeiras, contrafortes, solas e calçado”, descreve.
Adicionalmente, “os novos produtos de calçado e de marroquinaria apresentam uma maior durabilidade e uma menor pegada ambiental, medida seguindo o método europeu PEF”, podendo ainda ser “reparáveis ou recicláveis/circulares”. Acresce que “os processos de produção são redesenhados, humanizados e ecoeficientes, minimizando-se os produtos químicos utilizados, a energia e os efluentes e resíduos de produção”.
No reaproveitar é que está o ganho
Uma das áreas de maior intervenção do BioShoes4All é a reciclagem. “O projeto intervém ao nível de todos os materiais potencialmente utilizados no calçado, promovendo a criação de novas moléculas ou fórmulas para produção de couros, adesivos, borracha, poliuretano ou EVA, e processos de fabrico com ênfase para a sua sustentabilidade global e para o fecho do ciclo de produção”, recorda Maria José Ferreira.
“O mote é sermos inovadores, inclusivos, eficientes e potenciarmos o desperdício-zero”, continua. Assim, esta nova geração de couros, palmilhas ou solas será “até 100% biológicos, reciclados ou recicláveis, e com funcionalidades superiores, flexíveis, resistentes ao desgaste ou escorregamento, entre outros”.
Encontra-se ainda em curso um investimento em tecnologias de ponta com vista à produção de biocouros, bioplásticos ou bioborrachas e biocomponentes. “O projeto contribui para a implementação na Europa dos primeiros sistemas para produção de componentes e calçado em materiais termoplásticos expandidos e recicláveis”, conclui.
Fonte: APICCAPS
Fotografia: Carmo Amorim