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BioShoes4All apresenta uma nova geração de calçado sustentável

Com a conclusão do projeto a aproximar-se, CTCP – Centro Tecnológico do Calçado de Portugal e APICCAPS, entidades coordenadoras, realizaram a conferência BioShoes4All: Delivering the Future, no dia 22 de julho, reunindo investigadores, especialistas e representantes institucionais e de empresas que integram o consórcio, para observarem os resultados desenvolvidos e refletirem sobre os próximos desafios do cluster.

Após cerca de cinco anos de investigação em prol do desenvolvimento do setor, o projeto que mobilizou 60 milhões de euros de investimento – financiados pelo PRR – e 69 parceiros, entre centros tecnológicos, universidades e entidades públicas, gerou mais de 200 resultados científicos, tecnológicos e industriais – 46 linhas de investigação, mais de 50 produtos de menor pegada ecológica, 25 linhas-piloto industriais – e criou 8 plataformas e bases de dados.

Foram desenvolvidos novos materiais, como couros produzidos em extratos vegetais e alternativas ao crómio, biopolímeros e compósitos obtidos a partir de cortiça, ou resíduos agrícolas e marinhos; têxteis com recurso a caroço de azeitona e resíduos de castanha, assim como novas solas, palmilhas e componentes de origem biológica.

Focado na promoção da bioeconomia e da economia circular, o BioShoes4All criou e desenvolveu soluções para introduzir no processo industrial das empresas, permitindo reincorporar resíduos de couro, polímeros, borrachas e têxteis em novos produtos, e recuperar excedentes e materiais provenientes de artigos pós-consumo, assim como reutilizar matérias-primas de setores de atividade de áreas industriais distintas.

Um projeto que apostou, também, na digitalização da produção, através da introdução de tecnologias como inteligência artificial, visão artificial, Internet das Coisas, digital twins, robotização, corte inteligente de materiais e sistemas avançados de controlo de qualidade – para potenciar a eficiência produtiva e a redução de desperdícios.

Visitas à Rodiro e à Atlanta

O evento arrancou com visitas a duas empresas do cluster sediadas em Felgueiras: a fabricante de calçado Rodiro e a produtora de solas Atlanta. Os quase 200 participantes tiveram a oportunidade de visualizarem, in loco, as alterações no processo produtivo introduzidas num cenário pós-BioShoes4All.

Posteriormente, decorreu um almoço no Monverde Wine Experience Hotel, antes de iniciar-se a conferência, cuja abertura ficou ao encargo de Paulo Gonçalves, diretor-executivo da APICCAPS, em representação do presidente Luís Onofre. “Agregámos as empresas em torno de um compromisso comum e cedo demonstrámos que a sustentabilidade tem de ser uma causa coletiva. Há uma nova forma de produzir. Com o BioShoes4All, Portugal está a liderar internacionalmente e é possível produzir melhor e de forma mais sustentável. A indústria portuguesa do calçado é o exemplo de uma boa aplicação dos recursos públicos. Este projeto deixa a indústria mais preparada e se mantivermos a capacidade de inovar, o melhor não ficará para trás”, referiu.

Seguiu-se a intervenção de Pedro Dominguinhos, presidente da Comissão Nacional de Acompanhamento do PRR, que exaltou a “preocupação do setor do calçado em colaborar em rede”. “ Tiveram a capacidade de perceber os desafios comuns e de trabalhar em conjunto. Esta nova lógica de trabalhar em ecossistema é particularmente relevante, criando escala. Portugal lidera na inovação e há uma lógica evidente de planeamento. Agora, o desafio é evitar o ‘vale da morte’ pós-PRR e transformar a inovação em vendas nos mercados internacionais. O setor lidera em diferentes dimensões, em particular na bioeconomia, que permite uma alavancagem competitiva”, prosseguiu.

Para apresentar os principais resultados do projeto, tomou da palavra Maria José Ferreira, coordenadora do BioShoes4All e diretora de Investigação do CTCP, enaltecendo a importância do cluster para a União Europeia “em termos de volume de negócios”, mas que poderá “levar ao esgotamento de alguns recursos, que é uma chamada de atenção para a sustentabilidade global”. “Portugal cresceu em volume. É o segundo produtor de calçado em couro, mas é fundamental continuarmos a trabalhar, recorrendo a recursos mais renováveis, uma área estratégica para a Europa. Lideramos e temos de continuar a fazê-lo”, almejou.

Regina Vilão, diretora da Agência Portuguesa do Ambiente, destacou o projeto como parte integrante da “relevante estratégia europeia para a bioeconomia”, descerrando o véu sobre a temática, abordando o Plano de Ação para a Bioeconomia Sustentável (PABS) e o Plano de Ação para a Economia Circular (PAEC). “Vamos elevar a fasquia para o setor do calçado”, assegurou.

Terminada as intervenções individuais, tempo para a mesa-redonda, moderada por Miguel Cadilhe (APICCAPS), composta por Luísa Sousa (Monteiro Ribas), Pedro Castro (Aloft), Susana Ferreira (Curtumes Boaventura) e Tiago Brandão Rodrigues (Kyaia). Em suma, apelaram à continuidade de projetos desta índole, ressalvando a importância do financiamento para catapultar a introdução nos mercados globais de produtos mais sustentáveis desenvolvidos em Portugal.

“Estamos mais capazes, mas não estamos a chegar aos consumidores com produtos mais sustentáveis. É necessário haver uma obrigação regulatória coletiva. A prioridade deve ser ‘agarrar’ o foco da Europa na sustentabilidade”
 Luísa Sousa. 

“As pessoas ‘crescem’ nas empresas com projetos como o BioShoes4All, mas a Europa deve continuar a implementar uma política comum e respetivas ferramentas de apoio. É preciso influenciar, criar marca e melhorar a promoção… o problema é o financiamento”
– Pedro Castro.

“É um projeto que deixa uma capacidade coletiva que deve permanecer após terminado o financiamento. Há soluções que funcionam, mas não são aplicadas por falta de capacidade. Não basta produzir o mais sustentável. A indústria portuguesa tem capacidade de cooperação para estar na linha da frente… é algo que não pode terminar neste projeto”
– Tiago Brandão Rodrigues.

“Os mercados, nacional e internacional, exigem prazos e conseguimos tornar Portugal mais resiliente. A palavra-chave é qualidade e conseguimo-la. Agora, há reaproveitamento das águas residuais, novos produtos de base aquosa e novas matérias-primas”
– Susana Ferreira.

A tarde reservou ainda a intervenção de Anabela Rodrigues, da Estrutura de Missão Recuperar Portugal – PRR, que virou atenções para o futuro. “Importa perceber os resultados que irão aparecer. Este projeto não termina agora. É preciso dar seguimento às sinergias criadas. PRR deu o financiamento para chegarem até aqui, o mais difícil está feito. Este ecossistema criado é um exemplo de operacionalização”, disse.

Para encerrar a sessão, Manuel Castro Almeida, ministro da Economia e da Coesão Territorial, reconheceu a dificuldade industrial histórica associada ao setor do calçado, parabenizando os empresários. “Admiro-os imenso. É um setor que não está rendido. Há vontade de ultrapassar as dificuldades e o salto para os biomateriais é o salto correto, mas tem de haver apoio público”, iniciou.

Salientando as agendas mobilizadoras como “a parte mais esperançosa do PRR, juntando conhecimento com inovação”, apontou à necessidade de “transformá-lo em faturas ou valeu pouco a pena”. “O Estado vai ter de ajudar a ‘vender’ estes produtos”, prosseguiu.

Após regozijar o “arrojo de CTCP e APICCAPS”, apontou à necessidade de o cluster manter-se unido. “Vai haver menos dinheiro da UE para a Coesão Territorial, mas haverá o Fundo Europeu para a Competitividade, ao qual poderão candidatar-se. A solução é organizarem-se em consórcio… mantenham este consórcio”, aconselhou.

Terminadas as intervenções, tempo para cantar os parabéns ao CTCP, pelo 40.º aniversário da instituição, e entrega da nova revista ‘Calçado’.


Data Publicação: sexta-feira, 24 de julho de 2026
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