A proibição europeia de destruir vestuário e calçado não comercializados, que entrou em vigor desde 18 de julho, pode constituir uma oportunidade para a indústria portuguesa ao incentivar modelos de produção mais próximos dos mercados, mais flexíveis e ajustados à procura.
“Esta medida pode constituir uma solução para Portugal e para a indústria portuguesa”, considera Luís Onofre, presidente da APICCAPS.
No âmbito do Regulamento Europeu do Ecodesign para Produtos Sustentáveis, esta medida objetiva reduzir o desperdício e promover uma utilização mais eficiente dos recursos. Para Luís Onofre, esta alteração poderá favorecer os produtos fabricados na Europa e, em particular, Portugal.
“Ao obrigar as marcas a gerirem melhor os seus stocks e a reduzirem o risco de excesso de produção, reforça-se a importância de cadeias de abastecimento mais próximas e mais ágeis e capazes de responder às necessidades do mercado”, afirma. Segundo o presidente da associação portuguesa do calçado, a indústria nacional reúne precisamente essas características, dispondo de empresas especializadas em produções de menor dimensão, com elevados níveis de flexibilidade, qualidade e rapidez de resposta.
“Portugal tem-se afirmado como um parceiro estratégico das grandes marcas internacionais, não por competir em volume, mas pela capacidade de produzir com qualidade, rapidez e proximidade. Se as marcas passarem a privilegiar encomendas mais frequentes e mais ajustadas à procura efetiva, as empresas portuguesas poderão beneficiar dessa evolução”, sustenta.
Luís Onofre considera que a nova legislação representa igualmente um incentivo a modelos de negócio mais sustentáveis. “A sustentabilidade deixou de ser apenas uma exigência ambiental para se tornar um fator de competitividade. Produzir apenas aquilo que o mercado necessita, reduzindo desperdícios ao longo da cadeia de valor, é um objetivo da indústria há vários anos", referiu.
Segundo as estimativas da Comissão Europeia, entre 4% e 9% dos produtos têxteis colocados no mercado europeu acabam por ser destruídos sem nunca terem sido utilizados, contribuindo para milhões de toneladas de emissões de dióxido de carbono todos os anos.
A nova proibição aplica-se, numa primeira fase, às grandes empresas, estando prevista a sua extensão às empresas de média dimensão dentro de quatro anos.
Embora considere improvável uma deslocação significativa da produção concentrada na Ásia – 88% da atual é assegurada por países asiáticos – Luís Onofre entende que a medida poderá contribuir para reforçar a competitividade da produção europeia.
“Não esperamos uma mudança radical da geografia da produção mundial, mas acreditamos que esta decisão pode acelerar uma tendência que já se verificava. As marcas procuram cada vez mais fornecedores próximos, capazes de responderem rapidamente às alterações da procura, e Portugal está particularmente bem posicionado para responder a esse desafio”, conclui.
Fonte: APICCAPS
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