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Fileira do calçado aposta como nunca na certificação

Friday, June 5, 2009
Fileira do calçado aposta como nunca na certificação

São já dezenas de empresas da fileira de calçado certificadas. Ambiente, qualidade, inovação, higiene e segurança no trabalho e responsabilidade social são alguns dos “certificados” mais procurados. Nos últimos anos, dezenas de empresas recorreram aos serviços do Centro Tecnológico de Calçado de Portugal (CTCP), de modo a implementarem sistemas de gestão da qualidade.

Com a certificação as empresas procuram reorganizar-se, estabelecendo e implementando um conjunto de novos procedimentos capazes de se assumirem como mais-valias nos mercados internacionais. Desde logo, porque as empresas destacam que se trata de um precioso instrumento de melhoria da imagem externa. Certo é que a diferenciação é, cada vez mais, uma prioridade para um sector que exporta mais de 90% da sua produção e, por esse motivo, enfrenta uma fortíssima concorrência internacional. Com a certificação as empresas encontraram um novo veículo capaz de as “transportar” para um novo patamar de exigência.

Segundo Rui Moreira, Director do Centro Tecnológico de Calçado de Portugal, Unidade de Organização e Gestão de Empresas (ver entrevista) são basicamente três os objectivos das empresas que iniciam um processo de certificação. Por um lado, procuram diferenciar-se. Por outro, pretendem assegurar uma maior satisfação do cliente. Por fim, visam aumentar a produtividade.

A certificação é, actualmente, uma ferramenta de grande utilidade para empresas de toda a fileira do calçado. Em alguns segmentos, é mesmo indispensável. É o caso das empresas de calçado de segurança que, para poderem fornecer as forças de segurança de toda a Europa, se iniciaram há muito nos «pergaminhos» da certificação. No caso da Trofal são já 16 anos de experiência neste campo.

“A expectativa  há 16 anos atrás quando começamos o processo de certificação, era da abertura de mercados específicos, designadamente, área militar onde as empresas certificadas teriam vantagens no acesso a esses mercados”, adiantou Luís Couto. Para o Administrador da Trofal, “a certificação permitiu um grande controle na qualidade dos produtos fabricados e nos processos utilizados”. Acresce que “os custos da implementação e da manutenção do sistema serão inferiores aos que teríamos com os produtos " não conformes " e rejeitados pela não qualidade”. No caso da Trofal, foi ainda optimizada toda a organização interna da empresa.

Luís Couto reconhece que, no inicio, se verificaram “alguns problemas com a  classificação dos fornecedores, pois nem sempre será possível aceder às informações solicitadas”. Por outro lado, “a burocracia existente era excessiva e dificultou o processo”.

 Passados 16 anos, Luis Couto reconhece que “a confiança dos clientes desde a certificação é substancialmente superior, pois passaram a ter garantias adicionais tanto  ao nível da qualidade dos produtos como dos serviços prestados.

No caso da Eureka, o processo de certificação é bastante mais recente, e “irá contribuir para um maior reconhecimento por parte dos nossos clientes da imagem de qualidade dos produtos e serviços que fornecemos”, destacou Alberto Sousa. Simultaneamente, “irá contribuir para a melhoria dos nossos processos internos de produção e de fornecimento do serviço”.

Para o homem-forte da Eureka, “ainda que este seja um processo com algum grau de burocratização que, apesar de necessária, implica sempre um esforço grande de todos os colaboradores da empresa é já perceptível uma maior consciencialização do desempenho interno e um reforço da imagem da empresa junto dos nossos clientes”.

No sector de componentes e de curtumes são já, igualmente, várias as empresas certificadas como Atlanta, Cipade, Cabopol, ICC, Lorcol, Madil ou Procalçado, entre outras. 

Jose Pinho admite que com “a certificação a Lorcol procurou promover a melhoria da imagem da empresa”. O acesso a novos clientes e a mercados mais exigentes foram também objectivos desde sempre.

Para o responsável da Lorcol “a certificação atesta a implementação eficiente dos sistemas de controlo e a garantia da qualidade nas empresas, diminuindo o desperdício de produtos e os custos da produção, o que aumenta a competitividade das empresas certificadas face à concorrência”.
Outro factor importante passa pelo “aumento da satisfação e mesmo fidelização dos clientes”. José Pinho destaca ainda, que, no âmbito deste processo, foi possível optimizar o binómio qualidade-preço, “o que permite a comparação de ofertas, auxilia a escolha dos produtos por parte dos consumidores e, no caso da marca ser conhecida e procurada, evita a competição desleal, impedindo a importação e consumo de produtos de má qualidade”.

Nos últimos anos, as empresas da fileira do calçado apostaram definitivamente na certificação, em mais uma prova de competência e de dinamismo do sector mais internacionalizado da economia portuguesa.

Entrevista a Rui Moreira, Director de Organização e Gestão de Empresas, do Centro Tecnológico do Calçado de Portugal
“É tudo uma questão de credibilidade”
Para o Director de Organização e Gestão de Empresas, do Centro Tecnológico do Calçado de Portugal não é surpresa o «boom» de empresas da fileira de calçado certificadas. Perceba o porquê nesta entrevista.

Nos últimos anos, um número significado de empresas tem procurado o CTCP com o objectivo de iniciar processos de certificação. O que é que procuram as empresas na certificação?
As empresas procuram principalmente dois tipos de impactos. Primeiro, pretendem dispor de processos de gestão e de produção mais sistemáticos, que produzam menos falhas em termos de qualidade do produto e do serviço. Recordo que estas falhas representam, hoje em dia, custos muito elevados para as empresas. Depois, procuram transmitir uma maior confiança aos clientes, sejam novos ou já existentes. É tudo uma questão de credibilidade.
 
Quais são os principais ganhos competitivos que empresas podem conquistar com a certificação?
São basicamente três. Em primeiro lugar procuram diferenciar-se, pois há uma relação oferta/procura desfavorável para os produtores. É, como tal, muito importante que as empresas produtoras consigam transmitir ao mercado uma presença diferenciadora face aos concorrentes. A certificação pode contribuir para destacar a empresa do universo da oferta e ser relevante no momento do cliente tomar a decisão de compra. A relevância da certificação como elemento diferenciador é variável consoante o tipo de mercado e o tipo de certificação. No caso do calçado a relevância pode ser significativa em alguns tipos de mercados (ex: calçado de uso profissional) e na relação comercial “business to business”.
Em segundo, pretendem assegurar uma maior satisfação do cliente. Os clientes são um activo muito importante das empresas. Bons clientes são bens cada vez mais escassos. Se a empresa estiver focalizada nos clientes, se os seus processos forem eficazes e reprodutíveis provavelmente acontecerá o que as empresas mais desejam: o produto sai e o cliente volta.
Por fim, melhoria da produtividade. A qualidade é “amiga” da produtividade. Quanto mais não conformidades (falhas) no processo existirem numa empresa maior é o retrabalho (voltar a fazer o que já tínhamos feito). A redução dos problemas de qualidade contribui muito para a melhoria da produtividade do trabalho.

De um modo geral, (sub)entende-se um processo de certificação como algo moroso e até mesmo burocrático. Essa ideia corresponde à realidade?
Esta ideia pré concebida advém do “combate” à informalidade que é necessário fazer para melhorar a qualidade do produto e do serviço, a satisfação do cliente e a produtividade. Um exemplo: uma amostra de um novo produto é enviada ao cliente mas não é elaborado (“por falta de tempo”) um registo do material e fornecedor correspondente. Mais tarde, o cliente solicita amostras de venda ou de confirmação e vamos usar muito do nosso tempo para encontrarmos esta informação (perda de produtividade) e vamos necessitar de um prazo mais alargado para entregar as novas amostras (insatisfação do cliente). Documentar, frequentemente, é um investimento que tem retorno. A informalidade é ainda prejudicial na falta de dados concretos e fiáveis que possam ajudar a tomar decisões mais acertadas. Hoje em dia, com a dinâmica dos mercados e o conjunto de variáveis que afectam o desempenho das empresas é essencial que a gestão se faça com base em indicadores fiáveis e não em percepções. Em algumas empresas é necessário construir uma base sustentada de informação que elimine fontes de falhas e sustente a tomada de decisões.

Outras das particularidades, é que há empresas a certificarem-se em áreas tão distintas como a qualidade, o ambiente, a higiene e segurança no trabalho ou responsabilidade social. A que se deve isso?
Um dos aspectos fundamentais é a diferenciação. Dependendo do mercado em questão, pode existir uma maior valorização por parte dos clientes de uma diferenciação na área do ambiente, higiene e segurança no trabalho ou responsabilidade social. Por exemplo, actualmente as grandes marcas internacionais preocupam-se em assegurar que os seus fornecedores cumprem requisitos adequados nestas áreas e auditam as empresas produtoras com base em cadernos de encargos próprios. Frequentemente, estes cadernos de encargos contêm requisitos similares aos existentes nas normas de ambiente, Higiene e segurança no trabalho e responsabilidade social. Esta preocupação tem como principal propósito a defesa da marca de situações que possam deteriorar a sua imagem (acidentes de trabalho, incumprimento de leis laborais, incidentes de poluição, etc). Neste sentido, as empresas produtoras devem procurar um tipo de certificação que vá de encontro às maiores preocupações dos seus clientes transmitindo confiança e credibilidade nesta área potenciando, assim, um melhor e maior relacionamento comercial com esses clientes.

A implementação de melhorias nestes domínios e a consequente certificação pode ainda contribuir para a melhoria da satisfação das partes interessadas (por exemplo, colaboradores, comunidade local e Estado) sendo importante para o desenvolvimento sustentável das empresas.
 



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Fonte: Jornal APICCAPS,Jun.09

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