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Entrevista Florbela Silva: O FAIST vai transformar o setor do calçado

terça-feira, 18 de junho de 2024
Entrevista ao Jornal da APICCAPS com a coordenadora do projeto FAIST
Entrevista Florbela Silva: O FAIST vai transformar o setor do calçado

Até final do próximo ano, 34 produtos inovadores serão desenvolvidos e prometem fazer da indústria portuguesa de calçado a mais qualificada do mundo. Este é um dos resultados do FAIST, um projeto mobilizador enquadrado no PRR (Programa de Recuperação e Resiliência). Com um orçamento de 60 milhões de euros, engloba 45 co-promotores com competências multidisciplinares incluindo universidades, empresas e instituições do sistema científico e tecnológico.

O Jornal da APICCAPS conversou com Florbela Silva, do Centro Tecnológico do Calçado e coordenadora deste projeto.

Quais são os objetivos da Agenda Mobilizadora FAIST?

O FAIST foi criado como resposta às necessidades do setor do calçado e marroquinaria, com um foco na preparação deste setor para os desafios futuros, apostando de forma decisiva nas tecnologias digitais e na sustentabilidade dos processos e produtos, visando uma maior eficiência e rentabilidade, resposta rápida ao mercado, melhoria das condições de trabalho e diferenciação do produto e tendo como objetivos estratégicos. A saber: alargar o leque de especialização da indústria do setor com novas tipologias de produto baseados no conhecimento; aumentar a capacidade de oferta das empresas (pequenas, médias e grandes encomendas); inserção de Recursos Humanos (RH) qualificados e melhoria das qualificações dos RH existentes. O conhecimento será a nova base de recrutamento, contribuindo para a igualdade de género e de oportunidades; reforço da coesão social nas zonas de implantação da indústria, com impacto no emprego, na fixação do emprego qualificado, nas exportações e no desenvolvimento regional mais sustentável; aumento da visibilidade e notoriedade do cluster do calçado que poderá ambicionar alargar a sua intervenção na cadeia de abastecimentos mundial; aumentar a produção nacional de bens de equipamentos e tecnologias avançadas; apostar no fabrico e produto sustentáveis; criação de linhas de produção automáticas; criação de unidades piloto de teste e validação de novas tecnologias e processos.

No fundo, a reindustrialização e uso de processos de elevada produtividade que permitam às empresas fabricar pequenas, médias e grandes encomendas a preços competitivos, conseguindo entrar nas grandes cadeias de distribuição, que no passado se abasteciam em mercados mais baratos, como a Ásia.

Que novas ferramentas serão possíveis desenvolver nos próximos anos?
Tal como a própria sigla indica, o FAIST consolida o conceito de Fábrica Ágil, Inteligente, Sustentável e Tecnológica através da inovação nas mais diversas áreas, desde o software onde, por exemplo, a inteligência artificial passa a ter um papel importante, até ao hardware com equipamentos novos a serem desenvolvidos para processos existentes e para processos inovadores, até agora, escassos ou inexistentes na indústria nacional. Os novos produtos aparecem não só como consequência destes avanços nas tecnologias de produção, mas também associados a uma componente de inovação e investigação aplicada para a sustentabilidade e para as novas funcionalidades. Não esquecendo, claro, que são produtos que respondem às necessidades do mercado.

Quantos parceiros integram esta agenda mobilizadora?

O Consórcio conta com mais de 40 parceiros incluindo empresas de calçado e marroquinaria, empresas de desenvolvimento de equipamentos e tecnologias de automação, de software, às quais se juntaram também entidades do sistema científico nacional.

Do grupo de empresas que desenvolvem tecnologias, foram incluídos não só parceiros que já trabalhavam com o setor, mas também outras empresas líderes de mercado no setor automóvel e alimentar que vêm trazer o seu know-how e o que de melhor se faz noutros sectores integrando-o com a inovação existente no nosso setor.

Como se vai processar a ligação entre as empresas e a universidade?

Os desenvolvimentos por parte das empresas tecnológicas serão feitos em estreita colaboração com as empresas do setor do calçado e com as universidades e outras ENSII. Estas serão parceiros de desenvolvimento particularmente nas soluções onde é necessário um conhecimento que não existe nas empresas, ou cujo nível de desenvolvimento esteja em estágios mais baixos de prontidão. As universidades e institutos de investigação pela sua capacidade de vigilância tecnologia são peças chave na introdução de tecnologias inovadoras nos desenvolvimentos para o sector, resultando em soluções com elevado nível de inteligência e conhecimento intrínseco.

A Agenda tem na sua execução atividades onde a interação entre as empresas e as universidades e/ou institutos de investigação é essencial e onde se procura trazer um elevado nível de conhecimento pelo desenvolvimento tecnológico existente nas academias para o setor do calçado.

Ao mesmo tempo, mostra-se a atratividade deste sector para a incorporação de inovações resultantes da investigação realizada na academia fazendo-se a ponte entre estes dois polos, o da geração de conhecimento e o da sua aplicabilidade, com a o papel fundamental das empresas tecnológicas, de software e bens de equipamento, que traduzem esse conhecimento para ferramentas usáveis no dia a dia das empresas calçado.

Que grandes alterações serão percetíveis na nossa indústria no futuro?
O FAIST vai transformar o setor do calçado, transformação essa alcançada através não só do desenvolvimento de novos processos produtivos inovadores como a automação dos processos tradicionais.

O setor ficará capacitado com fábricas flexíveis, rápida resposta independentemente da dimensão das encomendas e ainda com um leque mais alargado a nível de produtos especializados.

Será, também, importante não esquecer as pessoas. Faz também parte da agenda uma capacitação do tecido humano produtivo existente nas empresas, assim como a atração, captação e fixação de recursos humanos mais capacitados e que possam trazer novos métodos, ideias e uma diversificação de pensamento inovadora para a nossa indústria.

Será possível verificar alterações desde a tecnologia existente em chão de fábrica, às ferramentas organizacionais, até às pessoas e sua capacitação.
 
No âmbito deste projeto, vamos procurar ser competitivos ao nível das grandes séries?
Os objetivos do FAIST não se centram numa dimensão particular de encomendas, mas sim na integração de tecnologias que permitam uma maior flexibilidade, dando às empresas um leque de soluções para uma resposta mais rápida e mais dirigida a uma variedade alargada de clientes, desde as pequenas às grandes séries.

As ferramentas de produção, desde os equipamentos, às linhas integradas, passando pelas soluções de software, permitirão que as empresas sejam mais eficientes, mais organizadas e que, sobretudo, possam oferecer um serviço de maior qualidade aos clientes como fator diferenciador.
O FAIST procura atuar em todas as etapas da produção, desde as soluções para prototipagem e a criação do produto, como a impressão 3D e as ferramentas digitais, à produção com acrescidos níveis de automação inteligente adaptável ao produto. É esta mesma “inteligência” e adaptabilidade que nos permitirá, como sector, dar resposta a uma maior variabilidade de encomendas, mantendo a qualidade, a rapidez de resposta e a relação com os clientes de excelência que caracterizam o calçado português. É natural, assim, que estas soluções nos tornem mais competitivos na resposta a séries maiores, não sendo esta uma meta, mas sim uma consequência da capacidade acrescida dada pelas soluções da Agenda.
 
Considerando que praticamente 90% da produção mundial é assegurada por países asiáticos, que papel está reservado a Portugal?
O sector do calçado português tem características únicas de qualidade, de conforto, de métodos de fabrico e de resposta rápida ao cliente, fazendo, muitas vezes, o que não se faz em mais nenhuma parte do mundo. Não se pretende com o FAIST substituir estas características que tanto valorizam o calçado português e o distinguem dos demais produtores mundiais.

Com o FAIST as empresas ficarão mais capacitadas a nível tecnológico, mas também a nível humano com quadros mais qualificados que se compararão com os melhores do mundo. Isto dará às nossas empresas uma capacidade acrescida de trazer e fixar novos clientes procurando ser um motor de produção com elevada capacidade tecnológica e uma resposta rápida única no mundo.

Portugal será capaz de produzir desde as pequenas às grandes séries, com elevado grau de diferenciação, com novas ferramentas para a resposta aos clientes, sendo assim expectável que parte desses 90% de produção encontram no nosso país parceiros de excelência para a produção de calçado.

Fonte: APICCAPS
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