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Calçado de conforto: o novo luxo

terça-feira, 22 de março de 2022
Calçado de conforto: o novo luxo


Sustentabilidade e digitalização parecem ser as palavras de ordem quando o tema é futuro. Uma visão transversal a todos os setores, incluindo o do calçado, onde a procura por novos materiais e a digitalização de processos de fabrico estão na ordem do dia. Mas não é só. Nesta complexa equação falta um elemento que é cada vez mais relevante: o conforto.

Recuemos até 2014. O famoso desfile da Chanel na Semana da Moda de Paris, mudou drasticamente a forma como nos calçamos. Vestidos de alta-costura com sapatilhas percorriam os corredores da passerelle transformada num supermercado. A mudança da indústria da moda começava nesse dia. Hoje, oito anos depois, estamos perante uma nova formalidade e as sapatilhas ganham um novo espaço, até mesmo no guarda-roupa formal.

“A Chanel deu a validação. Já existiam muitas marcas a pensar nesta questão anteriormente. O streetwear estava a crescer em força, principalmente no segmento masculino”, diz Fernando Bastos Pereira. “Diria que estas ascensão foi uma reação aos sapatos mais desconfortáveis. As pessoas já queriam começar a usar sneakers, porque começavam a estar mais ligadas ao bem-estar e ao desporto e queriam o conforto dos sneakers no dia- a-dia”. Para o produtor de moda, a maior adaptação da indústria ocorreu precisamente no segmento de tailoring, que teve de se adaptar a uma tendência mais desportiva. Desde aí, assistimos a uma mudança completa na forma como nos calçamos. Se as sapatilhas estavam circunscritas ao universo desportivo, rapidamente a procura por este estilo de calçado para o dia-a-dia disparou.

Se nas últimas estações pré-pandemia tinham proliferado as propostas streetwear, com sweats, sneakers, com o avançar da pandemia e o recolhimento em casa, a procura por roupa confortável e casual aumentou. O guarda-roupa prático e descontraído ocupou a vida coletiva durante dois anos. Mas o desconfinamento parece ter a capacidade de varrer tudo o que nos liga à pandemia. E agora? Queremos continuar a usar sneakers?

Os ‘ventos’ da New York Fashion Week parecem confirmar esta tendência e levantam uma questão muito relevante para indústria da moda. Estaremos perante o início do fim dos sneakers? A proposta das grandes marcas internacionais propõe um inverno com alguma formalidade. “Estamos cansados de sneakers”, lamentou o estilista Lazaro Hernandez após o desfile para a marca Proenza Schouler. A insígnia, com quase duas décadas, é reconhecida pelos seus vestidos polidos e com estampados. “Queremos moda”, diz Hernandez.

Mas como está a indústria de calçado a reagir? Pelos corredores da maior feira de calçado do mundo, já se prepara o próximo inverno e as propostas são cada vez mais distintas. Mas entre formal e informal há um denominador comum: o conforto.

“O aumento da esperança média de vida, associada a uma maior consciência sobre a importância da saúde dos pés (principal órgão de locomoção humana) tem feito aumentar o interesse e a procura por calçado cada vez mais cómodo e fisiológico. As vantagens da utilização deste tipo de calçado são inúmeras, mas podem dividir-se essencialmente em: estabilidade, respeito pela anatomia do pé e redução da fadiga muscular”, diz Sofia Ferreira, podologista e responsável pelo consultório Saúde no Pé.

“Os sapatos são para usar nos pés. Não nos podemos esquecer disto”, exorta Pedro Alves, responsável pela Cool Gray. “Há um lado funcional no calçado que não pode ser esquecido”.

“Antigamente entendia-se o calçado de conforto como sapatos para velhinhas”, brinca José Moura. “Qualquer sapato tem de ter conforto para ter sucesso. Mas não é o conforto à antiga, com sapatos adaptados às morfologias e problemas dos pés, isso são sapatos ortopédicos, desenhados por um ortopedista. O conforto é algo diferente”, explica o responsável comercial da Suave. A empresa de calçado Calsuave, nasceu em 1993 e é especializada em calçado de conforto. A marca própria Suave chega atualmente a 31 mercados em todo o mundo. E os clientes atravessam todas as faixas etárias.

“Há uns anos este tipo de calçado estava conotado com pessoas mais velhas e conservadoras. Antigamente, um sapato de conforto estava ligado a um sapato feio. Esta regra parecia inquebrável. Felizmente, hoje não é assim”, diz Pedro Alves. O responsável pela Cool Gray defende que a entrada do mercado das grandes gigantes internacionais mudou drasticamente o setor do conforto. “A entrada dos sneakers teve um duplo impacto na forma como nos vestimos. Primeiro, porque democratizou o conforto. Depois, habituamos o pé aos sneakers e estranhamos muito voltar ao sapato formal. Por isso, o cliente quando compra um par de sapatos quer que seja confortável”, diz Pedro Alves.

“As grandes marcas internacionais que sempre estiveram mais ligadas ao calçado desportivo, principalmente aos sapatos de desporto que exigem medidas e uma série de precauções extra, aproveitaram esse know-how e introduziram-nos na produção de calçado”, diz Moura da Suave. “Estamos a falar de empresas que faziam sapatos de corrida, de futebol, etc e esse know-how foi associado ao calçado que conhecemos hoje”, concluiu.

Mas os tempos em que os sapatos confortáveis eram um produto exclusivamente para faixas etárias mais velhas já acabou. A gama de idades da Plumex, empresa especializada em calçado de conforto, está acima dos 50 anos. Mas não por muito tempo. “Esta é uma idade onde as pessoas não estão muito preocupadas com o lado Fashion, mas com o conforto”. No entanto, admite Pedro Carlos, “a faixa etária dos nossos clientes começa a ser cada vez mais baixa. Já percebemos que as pessoas mais jovens estão a preferir sapatos mais desportivos e confortáveis em detrimento de saltos altos, por exemplo”.

“O conforto oferece muitas coisas diferentes. Podemos ter um sapato elegante que seja um sapato confortável.  A Suave não atua diretamente na área de moda, mas temos sneakers que facilmente pode ser calçados por um jovem de 20 anos”. Além disso, explica José Moura, “hoje conforto atravessa todas as idades”.

Para chegar ao público mais jovem, Pedro Carlos está a “desenvolver cores mais divertidas. Usamos os mesmos modelos, alteramos as solas para modelos mais desportivos e tentamos chegar a outros clientes”.

Mas tecnicamente, o que faz um sapato ser confortável? “Conforto é uma palavra que engloba muita coisa, desde as medidas de forma, fitting, materiais que se usam (quer na sola quer na palmilha, quer nas gáspeas), peles macias, tipos de costura. Conforto é muito abrangente. O importante é que o pé esteja bem dentro do sapato e que o caminhar seja agradável”, diz José Moura.  “O conforto é um somatório de muitas pequenas coisas: questões técnicas, de formas, materiais, melhor adaptação as morfologias do pé das pessoas, questões técnicas de produção”, diz Pedro Alves. “Mas sobretudo, é uma questão de princípio. A nossa empresa é especialista em conforto, trabalhamos há mais de 20 anos nesta área, com diferentes declinações.

“Existem vários elementos a ter em conta: as medidas das formas, a largura da sola, a preocupação que se tem com a linha de dedos, o plantar anatómico que suporta o arco do pe. A sola tem de ser muito flexível, não pode ser pesada, não pode escorregar… a gáspea tem de ser macias, tem de ter costuras que não toquem as partes do pe mais sensíveis (como joanetes e peito do pé). Introduzir tudo isto na moda foi um processo difícil, mas hoje a preocupação é o que se vê e acima de tudo com o que se sente”, explica o responsável da Suave.

Na Plumex, “a construção do calçado evita ao máximo as de costuras interiores, para não criar nenhum desconforto”. Pedro Carlos explica que a marca tenta sempre proporcionar “o máximo de elasticidade, nomeadamente quando falamos em clientes com algum tipo de deformação, e de flexibilidade”. A marca nasceu em 1990 pelas mãos da Tamancão, e combina a alta tecnologia com processos artesanais para produzir sapatos de grande qualidade e máximo conforto.

“Partimos do uso e do pé e somos generosos nas dimensões. Não sacrificamos tudo para criar a silhueta fantástica. Queremos que seja confortável e estético, mas é uma linha muito ténue e exige balanceamento. Na dúvida, o sapato tem sempre de ser confortável”, diz o responsável da Cool Gray.
Mas o conforto está cingido a uma simples gama de produto? Não, o conforto chega a todo o tipo de sapatos. “Há tantas formas de introduzir conforto no calçado”, diz José Moura. “Existem já soluções no calçado clássico que foram apreendidas neste segmento do conforto. Por exemplo, introduzir esponjas superiores para proteger o calcanhar, desenhar uma forma bicuda com um comprimento excecional, entre muitas outras”, explica o homem forte da Suave.

“Confesso, que tenho cada vez mais dificuldade em catalogar produtos. O conforto entrou na moda, da mesma forma que a moda entrou no conforto. Atualmente, passamos cheques brancos `moda. Os sapatos podem ser fantásticos, mas tem de ser usáveis. Porque hoje em dia temos um termo de comparação”, diz Pedro Alves.

A podologista Sofia Ferreira acredita “genuinamente que o futuro do calçado passará por este tipo de produto, em primeiro lugar porque não são apenas as pessoas mais idosas que procuram conforto e estabilidade para os seus pés, os mais jovens também privilegiam a comodidade quando compram um par de sapatos para utilização diária e em segundo lugar porque o esforço que foi feito pela indústria do calçado em tornar estes produtos esteticamente mais apelativos e joviais convidam todo o tipo de público à utilização de calçado de conforto sem o velho estigma do “feio sapato ortopédico” associado”, diz.

Sapatos até ao 45

Atuar em nichos de mercado com elevado potencial de crescimento é uma das estratégias da Cool Gray, uma empresa com mais de 20 anos de experiência na produção de calçado de conforto. Por isso, disponibiliza sapatos de mulher do 32 ao…45. “É uma necessidade do mercado. Temos uma cultura empresarial de procurar nichos onde possamos potenciar o nosso know how. Percebemos que existia um nicho de mulheres que calçam 42 e 43, bem como mulheres que calçam 32/33 e queremos que encontrem um produto contemporâneo e confortável”, diz Pedro Alves. “E é um dos segmentos que mais cresce, nomeadamente no norte da Europa”.

Mas as novidades da empresa não ficam por aqui. Além da marca Aerobics e Bella b, recentemente, foi lançada a Uniform-Shoes, uma nova insígnia focada no calçado profissional. “Também percebemos que existia uma área no corporate onde podíamos atuar e usar o nosso kow-how”.

E até ao 52…?
Também existe e são ‘obra’ da Storm. A empresa oferece tamanhos grandes para público masculino, que vão desde o normal 40 até ao 52. Uma forma de chegar a novos clientes e preencher um gap no mercado.

O conforto é sustentável?
Pode o conforto ser sustentável ou a procura pela máxima performance é incompatível com as preocupações ambientais? Pedro Abrantes acredita que a sustentabilidade tem de se aliar ao conforto, ao luxo e à performance.
“No campo da sustentabilidade podemos desenhar vários sapatos, mas estamos relativamente presos no que diz respeito ao conforto. É difícil termos um produto que queira dar passos na área da sustentabilidade, mas ainda não estão desenvolvidos todos os componentes”, avança o CEO d’asportuguesas. “Usar determinados componentes, como o gel ou o latex – que não são componentes sustentáveis - carecem de maior investigação para podermos dar outros saltos no futuro”.

O empresário acredita que o conforto está muito associado à sola, às palmilhas e à base do pe. Mas é possível ir mais longe. “Devemos pensar no todo, na capacidade do produto ser ambientalmente responsável. Mas há mais. No nosso caso, as solas são produzidas em cortiça e em borracha; podemos dizer que temos um produto confortável porque a cortiça não é condutora de calor e temos a capacidade de apresentar um produto mais fresco”.

Pedro Abrantes acredita que “é confortável ter um produto que não faz transpirar os pés. Não é apenas ser confortável, mas olhar para um todo e tentar introduzir aqui a sustentabilidade”.

“Acredito que o futuro pode passar pela sustentabilidade, aliada ao conforto”, diz o CEO d’asportuguesas.

Fonte: APICCAPS
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