A descarbonização é um dos principais desafios globais para mitigar os efeitos das mudanças climáticas e alcançar a sustentabilidade ambiental.
No contexto europeu e nacional, os compromissos de descarbonização para o ano de 2030 refletem um esforço conjunto para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa (GEE) e promover uma transição energética. O setor do calçado está alinhado com as metas nacionais estabelecidas no caminho da descarbonização*.
A iniciativa Compromisso Verde faz parte do Plano Estratégico 2030 do cluster do calçado da APICCAPS, tendo como objetivo envolver a fileira do calçado no compromisso de trabalhar e contribuir para as metas de redução das emissões de GEE e alcançar a neutralidade carbónica em 2050.
Neste contexto, foi criada e lançada a plataforma compromissoverde.apiccaps.pt, dedicada ao projeto e onde se apresenta o enquadramento da iniciativa, bem como os seus objetivos e metas, e o plano de ação que está a ser implementada para o concretizar. Além disso, nesta plataforma também é possível consultar a lista de empresas signatárias da iniciativa Compromisso Verde.
Metodologia de cálculo
Esta iniciativa focou-se no cálculo das emissões de GEE de âmbito 1 (emissões diretas) e âmbito 2 (emissões indiretas associadas à aquisição de energia), deixando o cálculo das emissões de âmbito 3 em estudo, devido à ausência de dados de suporte fiáveis para o efeito, nas cinco atividades definidas.
O cálculo das emissões de GEE (âmbito 1 + 2) baseia-se no documento Greenhouse Gas Protocol, desenvolvido pelo World Resources Institute e pelo World Business Council for Sustainable Development, nomeadamente no que se refere à definição dos Limites Organizacionais e Limites Operacionais, e à abrangência das atividades envolvidas (âmbitos).
Relativamente aos anos de cálculo considerados, o ano definido para referência do cálculo da pegada de carbono das empresas é 2015 e o ano de acompanhamento inicial é 2022.
A ferramenta de cálculo utilizada, criada com base no contexto e aplicada à realidade da indústria do calçado, permite efetuar o cálculo da pegada carbónica das empresas considerando as seguintes fontes de emissões:
- emissões diretas (âmbito 1): combustão estacionária; combustão móvel: frota; emissões de processo: COVNM (Compostos Orgânicos Voláteis Não Metano) por uso de solventes; emissões fugitivas: equipamentos com gases fluorados;
- emissões indiretas (âmbito 2): consumo de energia elétrica (adquirida).
Amostra
A iniciativa Compromisso Verde alcançou 146 empresas, que assinaram e assumiram o compromisso com a iniciativa, tendo concluído o processo de cálculo das emissões de GEE nos anos de 2015 e 2022 (99 e 104 empresas, respetivamente).
De notar que o CAE 15201 (Fabricação de Calçado) é o mais representativo nos dois anos em estudo, com um peso de cerca de 75% no total da amostra, seguido do CAE 15202 (Fabricação de Componentes para Calçado), com um peso de 12%.
A amostra, considerada em 2022, tem uma representatividade de 42% relativamente ao volume de negócios do setor e de cerca de 25% no que se refere ao número de trabalhadores.

*desta amostra, 8 empresas reportaram anos diferentes de 2015.
Principais resultados e conclusões
Os resultados indicam que, de 2015 a 2022, existiu uma redução de cerca de 29% das emissões (âmbito 1 + 2).
Em 2015, o âmbito 2 é o que tem maior peso, contrariamente ao que acontece em 2022, em que o âmbito 1 tem maior peso do que o âmbito 2.
A redução de emissões, principalmente no âmbito 2, decorre do investimento efetuado em UPAC (Unidades de Produção para Autoconsumo) e na contratualização de energia de fontes renováveis. O número de empresas a usar energias renováveis (UPAC e/ou energia verde) aumentou de 1 (em 2015) para 61 (em 2022).
As emissões de âmbito 1 foram desagregadas em emissões da combustão estacionária, combustão móvel e emissões fugitivas (associadas às fugas de gases refrigerantes e consumo de solventes).
Nos dois anos de estudo, a combustão móvel é a que tem maior peso, sofrendo uma redução de 8,28%, de 2015 para 2022. Esta redução é justificada pela progressiva conversão da frota automóvel das empresas, com a substituição de combustíveis fósseis como o gasóleo e a gasolina por energia elétrica.
A combustão estacionária foi a que sofreu um aumento considerável, de 2015 para 2022, revelando a necessidade das empresas em alterarem as suas fontes de energia estacionária para soluções que promovam uma redução das emissões de GEE.

Como reduzir (ainda mais) as emissões de GEE (âmbito 1 + 2)
Conforme os resultados obtidos, um dos focos principais de ação das empresas deverá ser no âmbito 1, nomeadamente nos processos de combustão para aquecimento e na redução da utilização de solventes, por exemplo, na substituição de colas de base solvente por colas de base aquosa, conduzindo à redução de COV (Compostos Orgânicos Voláteis) e continuar ativamente na conversão da frota automóvel.
No âmbito 2, existe margem para reduzir as emissões de GEE, começando por ações de promoção da eficiência energética, como controlar e minimizar as fugas de ar comprimido; instalar VEV (variadores elétricos de velocidade), de forma que este faça o ajuste da velocidade dos motores a cada momento e respondendo apenas às necessidades reais do processo; e substituir compressores antigos; entre outras ações.
Estas ações têm um duplo impacto positivo, com a redução de custos energéticos e a redução de emissões de GEE. Complementarmente, a implementação de um sistema de Gestão de Energia, segundo a ISO 50001:2018, também poderá ser apontada como uma possível medida a ser incluída no plano de ação das empresas.
Por fim, e ainda no que concerne ao âmbito 2, a instalação de barreiras para armazenamento de energia e/ou o reforço de UPAC são ações relevantes que, devidamente conjugadas com a contratualização da aquisição de energia de fontes renováveis, podem conduzir a uma maior autonomia energética e a emissões de GEE nulas.
Roteiro para a Descarbonização da Fileira do Calçado
Está em fase de desenvolvimento o Roteiro para a Descarbonização da Fileira do Calçado, que vai definir medidas com vista à redução das emissões de GEE ao nível da organização com ações específicas associadas a empresas industriais de calçado, componentes e marroquinaria.
O objetivo principal é definir um roteiro que constitua um guia orientador de ações concretas para a redução de emissões de GEE – âmbito 1 e 2 – e o cumprimento das metas definidas no Acordo de Paris.
Desde janeiro de 2024, o projeto Roteiro para a Descarbonização da Fileira do Calçado tem desenvolvido um conjunto de ações de formação e disseminação de informação, para capacitar e apoiar as empresas nas suas estratégias de descarbonização, e incentivar o envolvimento de todos os stakeholders e entidades, para cumprir com as metas climáticas, promovendo a descarbonização do setor.
*Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050 (RNC 2050), Plano Nacional Energia e Clima 2021-2030 (PNEC 2030) e Pacto Ecológico Europeu (Green Deal)