A descarbonização representa um dos principais desafios e compromissos no combate às alterações climáticas. No contexto nacional e europeu, os compromissos de descarbonização para 2030 refletem um esforço conjunto para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa (GEE) e promover a transição energética.
A União Europeia (UE) tem-se destacado como líder global no combate às alterações climáticas e a descarbonização é central nas suas políticas ambientais. O Pacto Ecológico Europeu (Green Deal), apresentado em 2019, define a ambiciosa meta de tornar a Europa no primeiro continente neutro em carbono até 2050, sendo definida a meta intermédia de redução, em 55%, das emissões em 2030 – em comparação com os níveis de 1990.
A nível nacional, o Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050 (RNC 2050) e o Plano Nacional de Energia e Clima 2021-2030 (PNEC 2030) constituem a estratégia de desenvolvimento a longo prazo da redução das emissões de GEE rumo à neutralidade carbónica em 2050.
A crescente urgência em limitar o aquecimento global a 1,5ºC, conforme determinado no Acordo de Paris, tem conduzido a que as indústrias adotem políticas e práticas com vista à redução das emissões.
No setor industrial, a descarbonização é uma questão ambiental, mas também integra a estratégia, uma vez que permite melhorar a eficiência energética, reduzir custos operacionais, cumprir a legislação e responder à crescente exigência dos consumidores e clientes.
Neste contexto, os indicadores de gestão figuram-se fundamentais para medir e monitorizar o desempenho das empresas no caminho rumo à descarbonização e garantir que os objetivos sejam efetivamente alcançados. Permitem avaliar o impacto ambiental da empresa, definir metas aplicadas à mesma e tomar decisões informadas com base em dados concretos.
No caso específico da indústria do calçado, o processo envolve, a título de exemplo, repensar na escolha de matérias-primas, processo produtivo e utilização de equipamentos mais eficientes energeticamente, numa abordagem integrada e sustentável. Através da definição de indicadores claros e o seu respetivo acompanhamento periódico, as empresas podem:
- quantificar os impactos ambientais reais (exemplo: emissões de CO2 por par produzido);
- comunicar de forma transparente com stakeholders (clientes, bancos, parceiros, etc.) através da realização do Relatório de Sustentabilidade);
- dar cumprimento à legislação aplicável;
- apoiar decisões de investimento em equipamentos e tecnologias mais limpas e eficientes energeticamente.
O CTCP – Centro Tecnológico do Calçado de Portugal, no âmbito do Roteiro para a Descarbonização da Fileira do Calçado, irá disponibilizar uma ferramenta de cálculo de emissões que permitirá analisar os seguintes Key Performance Indicators (KPI):
- emissões totais, ou seja, âmbito 1+2 (ton CO2 eq.);
- emissões de âmbito 1 (ton CO2 eq.);
- emissões de âmbito 2 (ton CO2 eq.);
- taxa de emissões de cada um dos âmbitos (1 e 2).
A monitorização do desempenho das empresas, através da utilização de valores absolutos de emissões de GEE, não pode refletir o desempenho evolutivo das mesmas ao longo do tempo, para além de não permitir a comparabilidade do seu desempenho com valores de referência (por exemplo, empresas concorrentes).
Esta situação é mais premente quando pensamos que, ao longo dos anos, o volume de unidades produzidas e de negócio pode variar significativamente, distorcendo a análise.
Então, como aferir o desempenho em termos de emissões de GEE e complementar a análise dos valores de emissões de GEE absolutos? Utilizando indicadores de gestão (KPI) que relacionam energia e emissões de GEE com a atividade da empresa, e que sejam comummente utilizados ao nível empresarial.
Com este propósito existem três KPI normalmente utilizados:
- Intensidade de Emissões: mais do que medir o volume total, é importante entender a relação entre emissões e a atividade da empresa, de forma a permitir comparar empresas de diferentes dimensões e acompanhar a evolução das emissões. Uma empresa produtora de calçado, por exemplo, pode aumentar as emissões de GEE absolutas com a expansão da produção, mas ainda assim reduzir sua intensidade carbónica, evidenciando evolução positiva mesmo com crescimento de atividade. A empresa pode ainda acrescentar indicadores como emissões de GEE por volume de negócios.
- Intensidade Energética – Consumo de energia âmbito 1+2/VAB, expresso na unidade kgep/€;
- Intensidade Carbónica – Total de emissões âmbito 1+2/VAB, expresso na unidade kgCO2eq. Total/€.
- Eficiência Energética: neste indicador, o foco é o uso racional da energia medindo o quão eficiente é a empresa em utilizar energia nos seus processos. Mais do que trocar a fonte, é essencial consumir menos, tornando este indicador importante em monitorizar, pois muitas vezes a maior oportunidade de descarbonização não está na troca da fonte de energia, mas na redução do consumo, ou seja, na eficiência energética. Este KPI mede a eficácia das ações implementadas pelas empresas para reduzir perdas de energia, por exemplo, no ar comprimido, no edifício e na utilização de equipamentos menos eficientes.
- Eficiência Energética – Consumo de eletricidade total/Volume de negócios, expresso na unidade kWh/€.
- Consumo de Energia Renovável: A transição energética é um dos caminhos mais rápidos para a descarbonização. Este KPI mede a participação de fontes renováveis (solar, fotovoltaica ou contratualização de energia verde, no caso das empresas da fileira) no consumo total da empresa. É obtido considerando a % de energia renovável sobre o total de energia consumido.
- Taxa de uso de energias renováveis – Consumo de energia renovável/total de consumo de energia, expresso em %.
Neste sentido, complementarmente, o CTCP disponibiliza um serviço de inventário e cálculo de emissões de GEE (âmbito 1 + 2) que permite analisar os KPI mencionados anteriormente.
A evolução anual dos indicadores deve fazer parte da estratégia das empresas do setor, construindo uma forma de motivação interna que permita que as empresas acompanhem a sua evolução e progresso de acordo com as metas estabelecidas.
No setor do calçado, onde a pegada de carbono pode variar significativamente consoante os materiais e processos utilizados, monitorizar é essencial para tornar a transição sustentável viável, mensurável e credível.