Sete empresas de curtumes fazem parte de um grupo pioneiro de 20 empresas portuguesas ligadas à fileira da indústria portuguesa de calçado que iniciaram um projecto de produção de calçado ecológico. Este projecto foi lançado pelo Centro Tecnológico do Calçado de Portugal (CTCP) e tem como objectivo envolver os agentes económicos desta fileira num processo de produção de sapatos com materiais e processos "amigos do ambiente".
No caso destas empresas de Alcanena, é a pele que está a ser curtida através de um processo ecológico, chamado curtimento a vegetal, que consiste em fazer o processamento da pele com recurso a extractos vegetais. Este processo faz com que a pele permaneça biodegradável e que não tenha efeitos nocivos ao contacto humano, um factor importante quando se trata de calçado e sobretudo de calçado para crianças que é uma das área em que este novo tipo de calçado está a ser lançado, sobretudo nas lojas Zippy Kidstore. Este calçado pode ainda ser encontrado à venda nas lojas Modalfa, o que totaliza cerca de 100 lojas por todo o país. Para encontrar o calçado ecológico basta procurar pelo rótulo verde com a designação "Biocalce", uma certificação que garante o cumprimento dos critérios de produção ecológica.
A fábrica de curtumes Rutra, de Monsanto em Alcanena, é uma das indústrias que faz parte deste projecto. Adolfo Henriques, um dos sócios-gerente, explica que esta certificação traz um novo reconhecimento e que abre algumas novas oportunidades. "Mas é um processo oneroso e algo burocrático. Além disso, só podemos certificar os produtos no laboratório do CTCP o que tem alguns custos", explica-nos o industrial. Apesar de estar neste projecto, a fábrica Rutra não alterou em muito os seus processos de trabalho, visto que já fazia o curtimento da pele a vegetal.
Esta área representa mesmo cerca de 70% da produção da empresa, restando os 30% para o processo de curtimento com recurso a crómio e outros minerais. A empresa produz sobretudo palmilhas e outros componentes para o calçado e apesar de ter um mercado assegurado por este projecto, Adolfo Henriques considera que, com esta crise financeira, "os clientes finais não estão dispostos a suportar um custo adicional no calçado só por ele ser ecológico".
Também a António Nunes Carvalho, do Grupo Carvalhos, está a produzir pele ecológica certificada para este projecto. Há vários anos que este Grupo já produz pele através de curtimento a vegetal e a sintético, uma técnica que começou a ser exigida pela indústria automóvel, em especial pela Wolkswagen, e que hoje em dia é usada para os estofos dos carros topos de gama e outros.
Actualmente, cerca de 60% da produção de todo o Grupo Carvalhos é ecológica, ou seja, é feita através do processo designado wet-white. "Este rótulo Biocalce vem reconhecer o que já fazíamos e dar-nos algum suporte comercial em termos de marketing", refere Nuno Carvalho, um dos administradores do grupo.
Rótulo Biocalce é encarado como
diferenciação comercial
Este rótulo é atribuído pelo Centro Tecnológico do Calçado que tem um gabinete próprio e um laboratório onde são realizados os testes que certificam a produção de modo ecológico. Este selo é encarado como um factor de diferenciação para estes produtos e permitiu até aos produtores aumentar o preço médio do calçado em 13,7% para os 16,69 euros. Ainda, assim os produtores de Alcanena consideram que a certificação ainda é um processo caro.
De Alcanena, fazem parte deste processo as indústrias António Nunes Carvalho, Cardoso&Oliveira, Curtumes Pião, Curtumes Ibéria, Curtumes Rutra, Joaquim Pinheiro Santos e Sucessores e a Unalco Leather.
Grupo Carvalhos foi pioneiro
Há vários anos que o Grupo Carvalhos, sobretudo com a empresa Couro Azul, está a produzir pele ecológica. Até criou uma marca própria para a sua gama de produtos ecológicos , a Oak Leather, numa referência quer ao nome do Grupo (Oak significa carvalho) e também às antigas formas de curtimento que usavam uma calda de casca de carvalho. Esta produção ecológica reflecte-se quer no processo quer no próprio produto final, que é, em regra, biodegradável e não provoca alergias, o que é muito valorizado na produção de calçado para crianças.
No processo de produção, a ecologia reflecte-se no recurso a técnicas com emissões de CO2 (sobretudo na secagem das peles), na reciclagem dos resíduos, na compra a fornecedores que cumpram as normais europeias REACH e que fiquem mais perto (Península Ibérica) e que exijam menos emissões no transporte da pele, na poupança de água nas lavagens por não se utilizar crómio, entre outras. A ecologia reflecte-se ainda no uso de corantes isentos de materiais pesados e na compra de matéria-prima fresca, entre outros processos.
A produção da António Nunes Carvalho é quase toda dedicada ao mercado do calçado. No global do Grupo Carvalhos, a produção de calçado representa já cerca de 40 a 50%.