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''A utilização de tecnologia é essencial na transformação sustentável da indústria''

Entrevista com Rui Moreira, do CTCP

''A utilização de tecnologia é essencial na transformação sustentável da indústria''

Em entrevista ao jornal da APICCAPS, Rui Moreira, responsável pelo projeto Roteiro para a Descarbonização da Fileira do Calçado, desenvolvido pelo CTCP – Centro Tecnológico do Calçado de Portugal, abordou os principais desafios que o setor enfrenta, explicando de que forma as novas tecnologias podem desempenhar um papel decisivo na transformação da indústria.

Que leitura faz da evolução do setor nos últimos anos, em especial no que toca à sustentabilidade?

Existe uma evolução muito significativa. Numa primeira fase, há 15 ou 20 anos, a palavra sustentabilidade era associada ao desempenho ambiental e as empresas responderam com a implementação de sistemas de gestão ambiental, constituindo-se um núcleo muito alargado de empresas da fileira com a certificação pela norma ISO 14001.

Este processo permitiu trazer para o interior das PME a quantificação e a melhoria contínua do desempenho ambiental. Com o decorrer do tempo, o conceito e as práticas de sustentabilidade foram alargadas aos domínios da responsabilidade social, ética e governança. Neste sentido, as PME da fileira têm desenvolvido ações no domínio ESG – Ambiental, Social e Governança – e a reportar as suas práticas através de Relatórios de Sustentabilidade.

A certificação das empresas e produtos, e o reporte de sustentabilidade são instrumentos relevantes para evidenciar de modo transparente e confiável, junto das partes interessadas – por exemplo, clientes e entidades financiadoras –, a evolução das empresas no percurso da melhoria da sustentabilidade.

Já estão disponíveis os primeiros resultados do Compromisso Verde. Como os avalia?

Os resultados alcançados demonstram a relevância da descarbonização para as empresas da fileira do calçado. Indicam que, entre os anos de 2015 a 2022, existiu uma redução de cerca de 29% das emissões de GEE – Gases com Efeito de Estufa (âmbito 1 + 2). A redução de emissões, principalmente no âmbito 2, decorre do investimento efetuado em UPAC (Unidades de Produção para Autoconsumo – sistemas solares fotovoltaicos) e na contratualização de energia de fontes renováveis. Numa amostra de 104 empresas da fileira, o número a usar UPAC aumentou de 1 (em 2015) para 61 (em 2022), o que é demonstrativo do investimento efetuado na autonomia energética e no caminho para o cumprimento de objetivos de descarbonização.

Qual o grau de adesão das empresas e quais as metas definidas?

A iniciativa Compromisso Verde alcançou 146 empresas, tendo 104 concluído o processo de cálculo das emissões de GEE para os anos de 2015 e 2022. De salientar que as empresas participantes representavam, em 2022, aproximadamente mil milhões de euros de volume de negócios e mais de dez mil postos de trabalho. As metas de descarbonização ao nível da UE estão integradas num pacote legislativo ‘Fit for 55’, que operacionaliza o Pacto Ecológico Europeu e que define, como objetivos centrais da descarbonização, a redução das emissões de GEE em pelo menos 55% até 2030, face a 1990, e colocar a UE no caminho para alcançar neutralidade climática até 2050.

Que papel têm as tecnologias emergentes (como digitalização, rastreabilidade ou biomateriais) na transformação sustentável da indústria?

A utilização destas tecnologias é essencial na transformação sustentável da indústria. A digitalização integra já múltiplos processos utilizados na indústria de calçado, na área de corte automático, na robótica, na prototipagem e na gestão e controlo de processos. Em relação à rastreabilidade, o desafio é chegar a toda a cadeia de fornecedores de modo fiável, sendo essencial a digitalização para gerir de modo eficaz e eficiente – e com o menor custo possível – o volume de informação a abranger. Os biomateriais são materiais alternativos já utilizados que permitem reduzir a dependência de fontes fósseis e, potencialmente, a pegada ecológica dos produtos. São tecnologias e processos em construção e integração que podem criar processos e produtos mais sustentáveis e competitivos.

A circularidade é uma palavra-chave. Há já exemplos concretos de boas práticas no setor?

Podemos abordar a circularidade como um ciclo de reaproveitamento e renovação de materiais, a durabilidade, a reciclagem e a redução do desperdício. Empresas produtoras de calçado e componentes têm desenvolvido processos para a integração de materiais reciclados nos seus produtos. No caso da produção de solas para calçado, têm efetuado investimentos significativos para conseguirem maiores taxas de recuperação de materiais do próprio processo, minimizando desperdícios. Na indústria de marroquinaria, a Belcinto, por exemplo, aposta numa estratégia de durabilidade, concedendo garantia vitalícia aos seus produtos.

A circularidade, entendida como um sistema onde os materiais e produtos sejam reutilizados e reciclados, é um processo que enfrenta desafios no design, materiais que compõem o produto e na logística reversa. Com este enquadramento, é de salientar a marca Lemon Jelly, com o projeto ‘Closing the Loop’. Estratégias de circularidade implicam sempre ações concertadas entre cliente (marca/distribuidor) e a empresa industrial, existindo, neste âmbito, outros projetos em curso.

A sustentabilidade pode ser uma vantagem competitiva para o calçado português nos mercados internacionais?

Sem dúvida. A sustentabilidade, como conceito que abrange o produto e o processo produtivo em termos ambientais, sociais e de governança, é uma oportunidade que deve ser potenciada pelas empresas da fileira por duas razões principais: o calçado produzido em Portugal, pelo seu preço médio de exportação, destina-se, cada vez mais, a mercados informados, conscientes, com maior poder de aquisição e, no caso do europeu, com regulamentação tendencialmente exigente no que se refere a requisitos associados à sustentabilidade; para além da proximidade geográfica ao mercado europeu, as empresas da fileira possuem condições para desenvolverem produtos com baixa pegada de carbono e com um processo produtivo transparente e ambiental, e socialmente responsável.

Como conclusão, podemos dizer que a sustentabilidade é um must. Tendencialmente, apenas as empresas com estratégias de sustentabilidade consistentes e transparentes estarão em condições para serem competitivas e alcançarem mercados de maior valor acrescentado.

Fonte: APICCAPS

Data Publicação: terça-feira, 2 de setembro de 2025
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