Um país em crescimento acelerado é sempre um país sedento de coisas novas e bonitas. É o que está a acontecer em Angola em relação à moda. E os criadores e marcas portugueses estão a aproveitar um mercado que, embora ainda pequeno, tem muitas potencialidades. É só preciso gingar e ter cuidado para não matar a galinha dos ovos de ouro.
No mês em que abriu portas em Luanda, a marca portuguesa de calçado Seaside vendeu dez mil pares de sapatos. Foi uma loucura. A loja, de quinhentos metros quadrados, está, literalmente a calçar a cidade: vende, em média, duzentos a trezentos pares por dia. Os sapatos são desenhados para o gosto africano, modelos mais tropicais, ousados, mais fashion do que a marca vende em Portugal. Como as sandálias de salto vertiginoso forradas a padrão animal e cravejadas de pontiagudos spikes que uma jovem luandense tem na mão. O namorado, que entrou com ela na loja ao som de um sonoro afro house, e se passeia pelos corredores repletos de caixas empilhadas, atira: «Mas queres sapato ou uma arma?» Ela: «São lindos demais, muito fashion...» E pede para embrulhar. Ele vai à procura de uns «relaxantes» - expressão africana para o que na Europa se convencionou chamar mocassins desportivos.
Este par de namorados não é exceção. «O povo angolano é muito diferente do português, é muito mais fashion, gosta mais de moda», diz Paulo Condeço, um algarvio a viver em Luanda há dez anos e diretor-geral da Seaside em Angola. O sucesso da marca portuguesa tem muito que ver com isso. Os best sellers são os mais ousados. «O mercado estava carente de calçado a preços razoáveis, necessitava de um produto equilibrado. Havia produtos bons com preços superespeculativos e produtos maus muito caros». O público da Seaside é transversal e abarca todos os segmentos com preços de dois mil a 18 mil kwanzas (entre vinte e 180 euros). A marca portuguesa conta com a demografia numa cidade que ronda os oito milhões de habitantes. E até ao fim do ano vai abrir mais cinco lojas em Angola. Num mercado diversificado e sedento, parece haver uma oportunidade em cada esquina: se os jovens preferem a moda, já as madres da Igreja de São Paulo, mesmo ao lado da loja Seaside, dão conta dos stocks da loja na gama conforto.
Em breve, a Seaside também vai vender outras marcas, isto porque, como diz Paulo Condeço, «o público angolano gosta e está disponível para pagar o valor acrescentado». É o que acontece com os vestidos de João Rôlo, que já são presença habitual nas festas desta cidade em ebulição. São vendidos não muito longe da loja da Seaside, na boutique Ana Isabel, a mais antiga das lojas de marcas de luxo de Luanda - depois de terem feito um longo percurso no Atlântico, desde o porto de Leixões até ao muitas vezes «caótico» porto de Luanda, serem desalfandegados e terem pago as devidas taxas aduaneiras. Todo este percurso acaba por encarecê-los - custam, em média, dois mil euros - mas isso não parece ter muita importância.
As coleções de João Rôlo estão mesmo a pedir festa e o costureiro encontrou aqui o seu nicho de mercado que lhe permite combater a crise do negócio em Portugal. «Quis perceber o que as angolanas usavam nas festas e foi fácil adaptar o meu estilo, se bem que o estilo delas seja muito europeu. Gostam de vestidos coloridos, brilhos, bordados. Ora, isso é exatamente o que faço.» Angola representa já quarenta por cento para o total dos negócios do criador. Na última presença, num dos eventos de moda em Luanda em que participou, João Rôlo inspirou-se nos azuis e verdes do mar da ilha da Sardenha, no glamour das festas em iates de luxo, e materializou esse imaginário em vestidos de tecidos fluidos, tons dégradés, brilhos, bordados à mão com pedras semipreciosas, jade e ágata. Resultou em cheio, e na assistência a palavra que mais se ouvia, em sussurro, ou nem tanto, era «Quero!».
Em Portugal, a crise está a levar a cortes, os primeiros nos produtos supérfluos. «O primeiro que as pessoas cortam é nos luxos e, sem problema, repetem os vestidos», conta João Rôlo. Em Angola repetir vestidos nas festas não é opção. E as festas são muitas e a indumentária que se vê nelas é o sinal exterior de como a moda está a tornar-se um assunto sério em Luanda. Basta ir numa noite qualquer a uma das discotecas da ilha, ao pé da praia: aos primeiros acordes de qualquer música saltam para as pistas mulheres com vestidos justos que definem as curvas do corpo com cores vivas e saltos muito altos. Muitos dos vestidos têm origem em Portugal, que parece ser o país que mais está a ganhar com este boom da moda. Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) confirmam que as exportações portuguesas de vestuário para Angola em 2012 representaram um volume de negócios de cerca de 42 milhões de euros, um aumento de 27,5 por cento face a 2011. No calçado os valores são de quase 15 milhões de euros, aumento de 12,2 por cento relativamente ao ano anterior. Hadjalmar El Vaim, produtor de eventos de moda e dono da agência de modelos Hadja Models, confirma a tendência: «Após a queda da economia em Portugal os criadores portugueses estão muito interessados em vir para Angola.» Ele próprio recebeu vários pedidos de informação.
O departamento de research setorial do Banco Espírito Santo identificou em 2012 uma lista das oportunidades de negócio nas exportações portuguesas para Angola. No top 10 dos produtos estão fatos, casacos, calças, jardineiras e calções de uso masculino. Uma oportunidade que levou o criador de moda do Porto Júlio Torcato a vir para Luanda. «Angola tem mostrado muito potencial nesta área dos fatos por medida», diz. A sua linha tailoring, a mais exclusiva da marca, traz a tradição de alfaiataria que é muito apreciada pelos homens angolanos. Júlio veio a Angola pela primeira vez no evento Angola Fashion Week, em junho de 2011, a convite da Associação Selectiva Moda. Percebeu logo que a sua marca se adaptaria ao cliente angolano e «particularmente ao lifestyle de Luanda, que é uma cidade com uma vida empresarial moderna e dinâmica e com um público bastante informado e exigente». Sapatos feitos à mão serão o próximo desafio da marca, que conta abrir um espaço de atendimento personalizado e exclusivo em Luanda até ao final do ano.
Quase se podia dizer que, para além das grandes marcas internacionais, se há moda em Angola, ela é portuguesa. Por enquanto não há a concorrência de lojas de grande consumo. Micaela Oliveira, conhecida estilista de famosos e especialista em vestidos de noiva, que comercializa em Angola as suas coleções de noivas e alta-costura, diz que «o produto português é credível e com um grau elevado de reconhecimento». Ex-modelo em Portugal, produtora de moda e coproprietária da agência de modelos Step Models, Karina Barbosa representa manequins - como a estrela em ascensão Maria Borges - e tem uma coluna de moda na revista cor-de-rosa People (onde critica looks em sessões semanais de «corte e costura». É ela quem convida a maioria dos designers portugueses para os desfiles. «Seleciono aqueles cujo estilo mais tenha que ver com a mulher angolana. Não adianta por exemplo convidar um criador que seja demasiado alternativo ou demasiado minimalista», explica. Micaela Oliveira concorda: «Para nós, criadores de moda, é aliciante vestir a mulher angolana, que nos permite arrojar nas cores, aplicações e cortes exuberantes. É esbanjadora de sensualidade».
Também na moda o mercado angolano funciona como extensão natural do português, por razões históricas e económicas, sendo a língua comum parte importante. Madalena Pereira é produtora de moda e trabalha há vários anos para revistas angolanas. Nasceu no Huambo (antiga Nova Lisboa) e tenta sempre fazer essa ligação luso-angolana. «Penso que nos cabe fazer a ponte de ligação entre os dois povos. Tentamos divulgar criadores angolanos em Portugal e vice-versa», diz a produtora.
Madalena Pereira diz que «há muita vontade» de sedimentar este intercâmbio, mas falta «criar estruturas». Criar estruturas num país em crescimento acelerado não é fácil. As lojas oficiais ainda sofrem a concorrência da revenda informal de peças compradas em Portugal e no Brasil. As singularidades do mercado angolano da moda revelam-se nas vendas em showrooms de atendimento privado em casas ou em hotéis seletivos - com entrada é reservada. A loja mais antiga de moda de luxo em Luanda, a boutique Ana Isabel (vende grandes marcas, de Elie Saab à Dolce & Gabbana, entre outras), está numa discreta vivenda sem letreiro no bairro da Maianga.
A verdade é que os criadores têm muita dificuldade em encontrar lojas bem localizadas e os preços são muitas vezes incomportáveis. Uma loja na baixa pode custar entre cinco e dez mil euros, valores semelhantes ao das principais artérias comerciais de Lisboa. A conhecida marca Rosa & Teixeira realizou, recentemente, uma parceria com a Casa Paris, fundada em 1997 e que, em plena baixa de Luanda, vende reconhecidas marcas internacionais. Ao lado dos fatos para homem da marca portuguesa há Salvatore Ferragamo, Canalli, Brioni, Façonnable e Escada.
Até há bem pouco tempo, as lojas estavam concentradas num único Centro comercial, mas a abertura de outros, novos, seguros, com rendas mais baixas proporcionou a abertura de mais lojas, como as duas da marca portuguesa de jeans Salsa, no Belas Shopping e no novo Atrium Nova Vida. «Já contávamos com um grande número de angolanos fãs da marca em Portugal, mas a calorosa recetividade aos nossos produtos surpreendeu-nos», refere Eliana Fernandes, do departamento de comunicação da marca. As vendas já ultrapassam 1200 jeans por mês. As preferências vão para os modelos inovadores que esculpem as silhuetas feminina e masculina e custam, em média, cerca de 16 mil kwanzas (160 euros).
A inconstância do mercado angolano é, no entanto, algo que várias marcas portuguesas já experimentaram na pele. Depois de ter aberto em 2008 uma loja, a Lanidor acabou por ter de fechá-la no início de 2012. A faturação chegou a atingir quinhentos mil euros em 2010, mas «desentendimentos na sociedade», conforme justificou na altura o administrador do grupo português, João Reis, ditaram o fim do negócio. Em Angola, é sempre preciso ter um sócio local, assim ditam as regras - as escritas e as não ditas. João Rôlo chegou a comunicar à imprensa angolana a abertura de uma loja em Luanda, no bairro nobre Miramar, onde se situam as embaixadas e mansões. «O grupo económico que me convidou acabou por não levar o projeto avante», explica o criador. Além disso, diz, «a mulher angolana gosta de exclusividade e, com uma loja aberta ao público, ia ter grande exposição». Também a criadora madeirense Fátima Lopes, anunciada como sendo a primeira estilista internacional a abrir uma loja em Angola, em 2010, acabou por ter de encerrá-la no ano passado. Estava no primeiro hotel de cinco estrelas da capital, com um aluguer a rondar cinco mil dólares por metro quadrado. O estilista Augustus, que viveu em Angola até 1976 e chegou a ter uma loja em Luanda nessa altura, é o único português que mantém um atelier, aberto há cerca de três anos e que conta com a colaboração de uma equipa local.
É por tudo isto que Miguel Vieira, designer português, entrou no mercado angolano com prudência. «Há quem ache que Angola é uma mina de diamantes e que as pessoas compram tudo. Não é verdade. Quando se trata do segmento luxo, falamos de pessoas com poder financeiro muito alto e para quem é muito fácil e natural ir a Paris fechar a Louis Vuitton ou a Dior para fazerem as suas compras.»
Luxo é luxo
A ideia de que as grandes marcas atraem o mercado angolano - compradores assíduos e generosos nas lojas da Avenida da Liberdade em Lisboa e noutras capitais europeias - esteve por detrás do conceito da MC Boutique. Oriane Queirós, uma jovem portuguesa que trabalhava como vitrinista no grupo Inditex, emigrou há seis meses e começou a trabalhar como gerente nesta loja de grandes marcas, onde recebe ministras, secretárias de Estado, empresárias e mulheres de altos dirigentes... Vende Valentino, Prada, Dior, Carolina Herrera, Armani, Roberto Cavalli ou Celine. Das portuguesas vende Helsar, marca portuguesa de calçado de luxo e joias Eugénio Campos.
Gastar 42 mil dólares em roupa de uma só vez? «Sim é possível», diz Oriane que, por vezes, recebe por marcação e à porta fechada. Os vestidos de cerimónia da marca francesa Fauste, por exemplo, têm valores entre setecentos e oito mil dólares e só são postas à venda peças únicas de cada modelo. As peças para o dia a dia vêm no máximo duas de cada e as clientes são avisadas. «Em Angola leva-se muito a sério a originalidade e a exclusividade», diz a gerente. A cidade, pelo menos a parte do asfalto, é pequena, os sítios que as classes altas frequentam e os eventos onde se cruzam são os mesmos. Ninguém quer arriscar ficar igual à pessoa do lado.
«Quisemos dar uma nova cultura de marcas aos nossos clientes e a oportunidade de fazerem compras aqui em Angola, sem terem de viajar ou pedir a alguém para o fazer», diz Márcia Nunes, sócia-gerente do Espaço Selecta, loja que vende Dior, YSL, Prada, Gucci, Ballenciaga, Loewe, Bottega&Veneta. Aqui tem-se a garantia de comprar marcas «verdadeiras»: a contrafação vendida noutros espaços é capaz de iludir os mais incautos. Um senão: «A maior parte dos fornecedores ao saber que a mercadoria vem para Angola aumenta a sua margem», diz Márcia. No entanto, os preços não podem ser muito inflacionados, já que as próprias marcas impõem limites. Fora do género lojas multimarca de luxo, apenas a Hugo Boss, a Lacoste e a Boutique dos Relógios Plus têm espaços exclusivos em Luanda.
Do pronto-a-vestir mais acessível até ao segmento de luxo, os players da moda portuguesa não duvidam que Angola é um mercado muito interessante e estão a investir. Mas faturar só porque há no país um poder de compra muito acima da média, salvar temporadas «despachando» peças para Angola a preços especulativos, ou os estereótipos de que «tudo se vende» já não vingam. Os tempos de crescimento económico a dois dígitos já lá vão e, apesar das previsões continuarem a apontar números acima da média mundial, a tendência será para a estabilização. «Temos de ver Angola como uma excelente oportunidade, mas temos de ter o produto certo com um preço justo, pois só assim podemos estabelecer parcerias e fazer vendas regulares e não pontuais», diz a estilista Micaela Oliveira. Para que haja negócio mesmo depois do fim do boom económico angolano.