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Macosmi: empresa que resistiu à falência, ao 11 de Setembro e a uma penhora do Estado por engano

Friday, October 2, 2015
Macosmi: empresa que resistiu à falência, ao 11 de Setembro e a uma penhora do Estado por engano

Macosmi, agora uma firma de sucesso na área do calçado, ficou há três meses com as contas penhoradas. Segurança Social exigia meio milhão de uma dívida que, afinal, não existia. Ministro da Economia agiu para salvar empresa que viu negócio de milhões crucial falhar após o ataque nos EUA.
Sentado num stand da Micam, em Milão, Itália, a maior e mais prestigiada feira de mundial de calçado, o empresário José Machado, vislumbra, de surpresa, o ministro da Economia, António Pires de Lima. Levanta-se e sorri quando os sapatos do governante fazem caminho para o espaço da sua empresa, a Macosmi.


“Temos das mais bonitas e emblemáticas fábricas de calçado [em Santo Tirso]", anuncia num gesto romanceado, de braços arguidos, tratando Pires de Lima, que no início de Setembro visitou as empresas portuguesas naquela feira, por “senhor primeiro-ministro”.

“Foi este o senhor que teve aquele tal problema”, diz Manuel Carlos, director-geral da Associação Portuguesa dos Industriais do Calçado, Componentes e Artigos de Pele e seus Sucedâneos (APICCAPS), agarrando o braço ao ministro. Pires de Lima solta um “ah!” e um “pois”, confirmando o sucedido. Depois, alegra-se e corrige o empresário que, porém, insiste em tratar o governante pelo cargo de Pedro Passos Coelho.

A deferência talvez encontre explicação numa ajuda do ministro que valeu meio milhão de euros à Macosmi. Em Julho, três meses antes da realização da feira, o telefone do gabinete de Pires de Lima tocou. A Segurança Social tinha penhorado as contas da Macosmi devido a uma dívida de 500 mil euros que, afinal, não existia. Foi o ministro que, em último recurso, desenlaçou o problema.

O sócio-gerente José Machado tinha, sem sucesso, tentado resolver a inesperada questão directamente na Segurança Social. Falou até com o presidente da instituição, mas só Pires de Lima, a pedido da APICCAPS que o contactou por telefone, salvou a empresa. Conta José Machado que se terão conjugado “as boas vontades” entre o ministério de Pires de Lima (CDS-PP) e o ministério da Solidariedade, Emprego e Segurança Social, de Pedro Mota Soares (CDS-PP), para que o problema fosse resolvido. “Alguém lhe [Pires de Lima] pediu ajuda”, garante, acabando depois por admitir a intervenção da associação do sector. A acção teve frutos. A Segurança Social emitiu uma declaração a admitir o erro que durante dez dias capturou as contas da Macosmi.

A firma familiar, que conta agora com 15 anos, facturou 11 milhões em 2014 e prevê facturar 15 milhões em 2015. Começou com 12 funcionários em 1997, a produzir 100 pares de sapatos por dia. Tem agora 192 funcionários e produz 1600 pares de sapatos por dia para toda a Europa, Estados Unidos da América, América do Sul e tem já projectos para a Colômbia, onde a indústria do calçado portuguesa prospera. A empresa tem a Coque Terra, uma marca de sapatos de média gama, a marca Atelier do Sapato, uma marca de sapatos de luxo e a Jomami, uma unidade de corte e costura, em Castelo de Paiva. “É uma empresa-exemplo”, sintetizou Manuel Carlos ao ministro, em Itália, durante a feira que ocorreu entre 1 e 4 de Setembro.

Do pequeno pavilhão de 500 metros quadrados, onde inicialmente se instalou, em São Martinho do Campo, Santo Tirso, a empresa foi comprando os pavilhões em redor – são agora oito – e passou para os 10 mil metros quadrados. Actualmente ainda em obras, com a instalação de novas linhas de produção, a firma está também a construir um ginásio para oferecer melhores condições de vida aos trabalhadores. Custou 20 mil euros e deverá estar pronto no próximo mês a par das obras num dos pavilhões da empresa onde se insere.

“Comprámos agora um outro pavilhão e vamos criar um pequeno ginásio para oferecer um estilo de vida diferente do que hoje temos. Muitos empregados ainda estão connosco desde o início. Trabalhamos oito horas por dia. Queremos dar-lhes algo diferente”, explica José Machado.

A própria empresa sempre teve de fazer um grande esforço, com constante ginástica nas suas contas, para se manter viva. De facto, o erro da Segurança Social não foi a única adversidade no capítulo das constantes vicissitudes que assolaram a Macosmi desde que foi criada. E nem sempre a empresa teve direito ao glamour das feiras mundiais de sapatos, como a da Itália, onde Portugal esteve representado por 93 firmas em Setembro deste ano.

Na memória, José Machado ainda tem marcada a falência em 2001. Até esse ano, o empresário apostou tudo no mercado norte-americano. Juntamente com os outros dois sócios, seus cunhados, José Miguel Rodrigues e Joaquim Gonçalves, tinha investido tudo que tinham na firma desde a sua criação: meio milhão de euros. A facturação não passava então de 1,5 milhões de euros por ano. “A nossa rentabilidade era quase toda para os bancos”, diz José Machado. Um negócio com a Nordstrom, uma grande cadeia norte-americana de venda de sapatos, prometia 1,5 milhões de euros com a venda de 50 mil pares de sapatos. “Era um estofo financeiro muito interessante”, lembra o empresário, com algum lamento.

Durante seis meses, o prometido negócio com os Estados Unidos da América esteve parado. “Ninguém sabia se ia acontecer a terceira guerra mundial. Da América ninguém nos dizia nada. Não havia notícias do nosso negócio”, conta o administrador que teve, finalmente, de vender os sapatos a “preço de saldo”, por cá.

Por cinco euros cada par, conseguiu facturar 250 mil euros, bem longe do tão esperado milhão e meio de euros. “Foi uma grande perda e em Março de 2002 percebi que estava tramado. As dívidas já ultrapassavam o valor da facturação. Com mais um milhão e meio em cima da dívida de um milhão, a dívida total passou para dois milhões e meio. Lembro-me de dizer ‘estou tramado. Não consigo superar isto. É a falência técnica’ ”, recorda o empresário.

A honestidade foi a melhor solução. José Machado chamou todos na firma. O advogado, os sócios e os 46 funcionários. Falou-lhes num plenário tomado por uma emoção dúbia. Ora governado pela tristeza, ora pela coragem que finalmente vincou no final. “Vocês conhecem-me. Já estão comigo há quatro anitos. Não vim aqui para perder. Parti as pernas, mas vou recuperar. Confio em vocês, confiem também em mim”. O apelo resultou. Os funcionários acreditaram no futuro da empresa e o salário nunca lhes faltou. José Machado recorreu a um Plano Especial de Revitalização e conseguiu também negociar com os fornecedores um perdão de 30% das dívidas. Em sete anos, pagou o restante. O plano contou ainda com o recurso a bancos, mas para financiar a Macosmi, José Machado e os cunhados tiveram de hipotecar as casas e os bens.

O episódio que quase significou o fim da Macosmi tinha já, contudo, um prenúncio anterior. Afinal, os problemas começaram logo de início. Quando em 1997, José Machado se candidatou ao Sistema de Apoio a Jovens Empresários e avançou, crente no apoio, com a constituição da empresa, não esperava que em 1998 a candidatura fosse recusada. Já tinha então investido meio milhão. “Tinham-me garantido que o projecto tinha sido aprovado, mas depois recebo uma carta na empresa que dizia que afinal foi recusado por falta de autonomia financeira. Mas isso foi treta. O Governo é que não tinha no orçamento a capacidade e o dinheiro suficiente para apoiar a indústria”, critica o empresário.

Como deu a empresa a volta ao infortúnio? Mais uma vez, José Machado, que antes de se aventurar no sector do calçado tinha quatro lavandarias, três clubes de vídeo, uma loja de loiças, uma de decoração, um café e um gabinete de contabilidade, além de trabalhar numa empresa têxtil, teve de apelar ao génio que desenvolvera anteriormente nos vários negócios.

Bateu à porta de todos os bancos que então existiam e conseguiu “apoios pontuais a curto prazo de 100 a 200 mil euros” e forçou o aumento “do nível produtivo”. De 100 pares de sapatos por dia, a Macosmi passou a produzir 400. Isso significou também passar dos 12 para as 42 funcionários e gerir bem a dívida. “Acabava-se uma livrança e tinha-se de pagar outra”, recorda José Machado.

Quinze anos depois, o empresário respira de alívio face aos contratempos que atingiram a empresa e contenta-se por nunca ter desistido. “Face a tantas dificuldades, não há quem não pense em desistir. Mas depois dessas vicissitudes todas, sinto-me encorajado pelo esforço que tivemos. Sinto-me um homem feliz e orgulho-me do percurso que fizemos”, refere. Agora só falta “o ministro Pires de Lima que tem ajudado muito a indústria do calçado” responder ao convite e vir visitar a Macosmi. A firma que derrotou todas as tormentas, “merece ser vista”, realça.

1970

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