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Empreender e Errar

Os caminhos da inovação sofrem-se ao caminhar. Não há processo de aprendizagem sem uma estóica tolerância ao fracasso. Não há inovação sem desilusão. E o sucesso é construído às custas de inevitáveis erros e penosos desastres. O falhanço é o progenitor da grandeza... a constatação deste paradoxo é a observação- -tese de um dos mais fascinantes engenheiros da actualidade. O seu nome é Henry Petroski, ensina engenharia civil na Duke University e mantém uma coluna na revista Scientific American.
Vale a pena insistir na mensagem do último livro de Petroski, Success through Failure, recém-publicado pela Princeton University Press. Celebrado como guru da engenharia, ele oferece um poderoso antídoto contra as mensagens fáceis dos gurus da gestão. Numa era em que as ideologias são sacrificadas ao bezerro de ouro da inovação e das reformas, Petroski sublinha o lado lunar da mudança, para a qual não existem fórmulas infalíveis ou mágicas. A inovação não resolve todos os problemas. Pelo contrário, o excessivo optimismo no seu poder redentor é em si próprio gerador de inesperados problemas.
O desenvolvimento de novos produtos, de estratégias empresariais, de grandes obras e de políticas públicas é algo de difícil execução. Mas, uma vez que estes artefactos (tangíveis e intangíveis) sejam lançados no mundo (físico e social), então eles ganham vida própria. É então que as suas funcionalidades começam a produzir efeitos reais, e simultaneamente as limitações começam a tornar-se evidentes.
Avancemos com um exemplo mundano mas subtil. O clip evoluiu ao longo de uma trajectória sempre interrompida por vários designs estruturais até estabilizar no actual modelo "gema de ovo", habitante da maioria das secretárias e escritórios. Mas, ainda assim, este exibe problemas não resolvidos: não agarra bem o papel, não suporta um grande número de folhas, tende a não voltar à forma original uma vez dobrado, etc. Estas limitações tendem a seu tempo a ser descobertas pelos utilizadores e não pelos produtores dos objectos. E é por isso que os destinatários finais dos artefactos se tornam muitas vezes em melhores peritos que os especialistas originais. E é assim que a busca continua, sendo alimentada tanto pelo lado da oferta quanto pelo lado da procura. E é deste modo que vão surgindo várias alternativas ao clip tradicional: clips com serrilha (maior atrito ao papel), triangulares (mais fortes, mas menos capazes de prenderem muitas folhas), coloridos (mais visíveis, menos monótonos), de plástico (mais formatos), etc.
A História é um monumento à ignorância e ao falhanço. Mas o convívio com o erro fornece um incentivo persistente à sua superação. Por isso há algo mais importante do que imitar o sucesso alheio: prestar atenção aos colapsos é mais produtivo do que ter vergonha deles. Não há melhor seguro contra o insucesso futuro do que confrontar cenários de fracasso antes que estes se materializem. C

Fonte: Diário de Notícias, 29.Jun.06

Data:2006-06-30    Visualizações: 1584


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